O império aperta os parafusos, com resultados duvidosos.

Na sua disputa com o Irã pela hegemonia no Oriente Médio, os EUA tentam destruir a economia do país rebelde.

Em junho, incrementaram sua pressão para forçar os outros países a interromperem relações comerciais com os iranianos, o que poderia levar ao caos a economia desse país.

Com a sem-cerimônia típica dos impérios, ordenou que todos eles parassem de comprar petróleo iraniano, a principal fonte de recursos do governo de Teerã. E deu um prazo. Teriam até novembro para reduzirem totalmente essas importações. (Reuters– 26-2-2018).

Do contrário, o fabuloso mercado americano seria fechado às empresas que ousassem desobedecer ao diktat de Donald Trump.

Quem iria renunciar às seduções desse maná?

O governo iraniano não está assistindo de braços cruzados a essa campanha para arruinar seu país.

Há poucos dias, o presidente Rouhani participou da inauguração da segunda fase de uma imensa refinaria.

Na ocasião, declarou que, se de fato o mercado externo for rigorosamente limitado pelas pressões dos EUA, o Irã, com a conclusão dessa fase da obra, tem condições para chegar à auto-suficiência, já. Seria necessário apenas que todos, governo e povo, economizassem no consumo de gasolina e diesel.

Quando, num futuro próximo, a nova refinaria estiver totalmente concluída, o Irã estaria então totalmente auto-suficiente em sub-produtos do petróleo.

Com capacidade para começar a exportar petro-químicos refinados e intensificar a fabricação desses produtos, o que iria trazer lucros muito mais consideráveis para a nação. O que serviria de escudo contra as sanções dos EUA.

Os esforços para se conseguir também auto-suficiência em energia continuarão centralizando-se no desenvolvimento da energia nuclear.

Já se encontram em operação instalações de processamento de urânio, que convertem urânio bruto em gás hexafluorido de urânio. Utilizado pelo Irã na produção de combustível de baixo enriquecimento para a sua usina de energia nuclear, em Bandar Buchhe.

O acordo nuclear com as grandes potências impõe um enriquecimento limitado, muito abaixo do necessário para atingir a completa auto-suficiência. Mas, permite aos iranianos realizarem o processo completo de mineração de urânio para gerar eletricidade.

Enquanto isso, o governo do Irã trabalha para procurar garantir a continuidade de sua exportações de óleo bruto.

Agora, seu alvo principal seja a Europa.

Seria a melhor oportunidade para os três países do P5+1, (França, Inglaterra e Alemanha), ajudarem a economia iraniana, garantindo o acordo nuclear, combatido por The Donald.

Apesar ds promessas europeias, o fato é que suas empresas estão retirando os investimentos no Irã para não receberem sinal vermelho da economia americana.

O Irã confia que a China, principal importador do seu petróleo, a Índia (segundo maior), o Japão, a Coreia do SuL, a Turquia e algumas nações da Europa confirmem suas promessas de não interromperem a importação do petróleo iraniano.

Talvez esteja sendo otimista.

Tudo indica que a Índia (o 2º. maior importador de petróleo iraniano) vá roer a corda.

Em 20 de junho, o secretário para Cooperação Internacional no Ministério Hindu de Petróleo, Sunjay Sudhi, declarou que as compras de petróleo iraniano estavam garantidas: de acordo com ele, a Índia não reconhece sanções unilaterais (como as de Trump)  e preservará seu direito de ignorar as exigências de Washington (Al Jazeera, 21-6-2017).

E assim foi…durante uma semana.

Depois de receber instruções do secretário de Estado, Mike Pompeo, Nikk Haley, embaixadora dos EUA na ONU, viajou para Índia.

Em Nova Delhi, encontrou-se com o primeiro ministro Modi e fez saber que o melhor para os interesses dos indianos seria deixarem de importar petróleo do Irã.

O chefe do governo indiano baixou a cabeça.

No dia seguinte, o ministro do Petróleo reuniu-se com as empresas refinadoras de petróleo para contar de o que rolou na conversa com Nikki.

E pediu que os empresários se preparassem para, até novembro, terem de reduzir drasticamente suas importações do Irã, ou mesmo de não importarem nem mais um só barril.

A seguir, numa entrevista com a imprensa, ele disse: ”Nesse momento, nós realmente não sabemos o que fazer, mas ao mesmo tempo temos de nos preparar para enfrentar uma eventualidade.”

Completou, afirmando que a nação iria atender a seus interesses, ao decidir sobre a importação de petróleo.

Ninguém tem dúvidas sobre qual deve ser essa decisão.

Com a faca no pescoço, os diretores da Realiance Industry operadora do maior complexo de refinarias do mundo, conformou-se em deixar Teerã falando sozinho.  A própria Nayara Energy, apesar de ser propriedade da maior petrolífera russa, a Russnet, também começou a se preparar para fazer a mesma coisa, em novembro. Além da Nayara Energy,a Indian Oil Corp e a Mangalore Refineries and Petrochemicals, as três maiores compradoras de petróleo do Irã, não responderam a perguntas da agência Reuters. Parece que estão em cima do muro, esperando o que vai acontecer.

Pelo menos os turcos deram alguma alegria a Rouhani. Aposto que ele tomaria uma boa dose de Arak para comemorar a amizade de Ancara, não fosse proibido por sua religião.

Há tempos que o presidente Erdogan troca flechadas com Trump. Ele teve a maior satisfação ao dizer que as imposições imperiais passam ao largo da Turquia.

Ecoando o chefe, o ministro da Economia, Nihat Zeybekci, rejeitou as exigências americanas, garantiu que a Turquia continuaria comprando petróleo bruto iraniano, de acordo, aliás, com os interesses nacionais. Citado pelo jornal Hurriyet, foi ainda mais incisivo: “Nós estaremos atentos para que nosso amigo, o Irã, não tenha de sofrer quaisquer ações injustas (Reuters, 21-6-2017).”

Igualmente, a União Européia tende a atender ao apelo do governo Rouhani.

Ela não quer que, sentindo-se desamparado, o Irã saia do acordo nuclear (como já prometeu), o que traria problemas seríssimos para estabilidade mundial.

Além disso, os europeus, profundamente irritados pelas agressões econômicas do governo Trump, tem bons motivos para não ceder ás ordens do Império.

Quanto à China, envolvida em guerra comercial com os EUA, provavelmente ficará ao lado de Teerã. Recentemente, o porta-voz do Ministério do Comércio, afirmou (em nome do governo) que as firmas chinesas continuarão a manter relações normais com o Irã.

Trump sabe que sua ofensiva comercial contra o Irã não o forçará a aceitar certas reformas no Acordo Nuclear do seu agrado e do agrado de Netanyahu.

Se eventualmente, os seus parceiros do P5+1 não conseguirem evitar que com as sanções de Trump a economia iraniana naufrague, Teerã pode sair do barco.

Afinal, o que o Irã ganharia, permanecendo?

Nesse caso, acho que Rouhani tende a embarcar na chamada “solução Piongiang”, desenvolvendo um programa nuclear até ter prontas várias bombas atômicas. Quem sabe aí, The Donald toparia um “encontro histórico” onde o presidente iraniano seria ouvido com atenção.

Isso, é claro, se Israel e os sauditas não atacarem antes para cortar as azas iranianas.

Se der isso, o Oriente Médio seria, fatalmente, imerso numa guerra indesejável para a comunidade internacional.

Como Irã naõ possui mísseis balísticos de longo alcance, capazes de tirar o sono dos americanos, Trump poderia se sentir tentado a aprovar uma guerra por procuração, contra o Irã. Nela, Israel e Arábia Saudita é que seriam os principais atores, arcando com a parte maior dos gastos e das vítimas.

Os EUA, colocando-se como um membro do supporting cast, teriam uma participação apenas limitada: fornecedor de armas. Não mandariam seus boys arriscarem a pele nesses locais remotos em operações terrestres.

No entanto, embora o território americano fique fora do alcance dos mísseis iranianos, a série de bases na região estão bem próximas, plenamente acessíveis a ataques balísticos.

Como o Irã não é o Iraque, muitos soldados americanos  acabariam morrendo.

Lembro que as pesquisas vem provando que o povo americano recusa veementemente novas guerras, com seus jovens voltando em caixões. Aí, a reeleição de Trump ficaria a perigo.

Há muitos desdobramentos possíveis da guerra  econômica iniciada por Trump para nocautear seu rival no Oriente Médio.

Arrisco-me a dizer que qualquer deles será maligno.

 

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