Novo bombardeio de sanções contra o Irã

O governo Trump anunciou que vai cortar todas as licenças concedidas por ele para outros países importarem petróleo do Irã.

Ao retirar os EUA do Acordo Nuclear com Teerã, ele verificara que estava isolado, todos os demais signatários – Reino Unido, Alemanha, China, França e Rússia não o seguiram, além de vários outros países que continuaram negociando com os iranianos.

Resolveu então fazer algo semelhante ao bloqueio continental à Inglaterra, ordenado pelo imperador Napoleão. O general francês proibira que as nações europeias admitissem contatos econômicos com o governo de Sua Majestade.

Como a história mostra, acabou não dando certo.

Para evitar fracasso igual, The Donald apoiou seu ukase com sanções, que impedem qualquer país de comerciar om o Irã, envolvendo a importação de petróleo, da qual depende a economia do governo de Teerã.

A pedido de um grupo de países, o morador da Casa Branca, olimpicamente, deu permissão a que continuassem comprando o petróleo iraniano durante diferentes prazos.

Explicou que sua generosidade vinha do receio de que, retirando do mercado abruptamente as 2,5 milhões de toneladas diárias de petróleo iraniano poderia causar um aumento de preço da commoditie, bagunçando gravemente a economia dos países importadores.

Agora, parece que seus escrúpulos voaram para longe pois, embora as sanções já tenham forçado o Irã a baixar suas vendas de 2,5 milhões para para 1 milhão de toneladas diárias, ainda assim é o suficiente para forçar uma elevação de preços.

Na manhã do mesmo dia do anúncio imperial, o preço internacional do petróleo cru tipo Burden subiu 2,6%.

Dos 8 países que estavam se beneficiando da regalia de Trump, três deles – Itália, Grécia e Taiwan apressaram-se em obedecer.

Quanto aos outros, estabeleceu-se um impasse.

A China já prometeu que não deixará o Irã na pior e tem músculos de sobra para desprezar as sanções americanas.

A Índia também havia declarado que jamais se submeteria a decisões de qualquer outro país. No entanto, há boatos de que as empresas importadoras estavam em busca de fornecedores alternativos ao petróleo de Teerã.

Quanto a Erdogan, ele adora proclamar a independência de seu povo diante de Tio Sam. O problema é que ele já está brigando com a Casa Branca por causa dos caças F-35, cuja venda os americanos ameaçam cancelar devido à aquisição turca do sistema anti-míssil russo S-400.

Será que o sultão topará enfurecer The Donald duas vezes, lembrando que, no ano passado, o caso do pastor protestante que ele não quis soltar levou a sanções de Washington causando uma crise econômica na Turquia ?

A Coreia do Sul tenta convencer o morador da Casa Branca a lhe dar mais um prazo. Para o presidente Moon, ainda às voltas com os rugidos do Norte, não é fácil encontrar um substituto para o petróleo iraniano.

The Donald tem dito que a Arábia Saudita e a União dos Emirados Árabes prometeram aumentar sua produção. Não deveria haver falta de petróleo, gerando aumentos indevidos.

Mas o reino não tem pressa em atender aos rogos americanos. Primeiro, como disse seu ministro do Exterior, quer avaliar o impacto da cancelamento das permissões (Reuters, 22 de abril de 2019).

Os EUA também esperavam que o Iraque – segundo maior produtor mundial de petróleo- desse uma ajuda, elevando sua produção. Os iraquianos se negaram – tem excelentes relações com o Irã e aproveitaram para solicitar o OK dos EUA para continuarem importando energia elétrica e gás iraniano, essenciais à sua economia.

É bem possível que The Donald se dobre às exigências de Bagdá. Afinal, ele disputa a amizade do Iraque com o Irã, não lhe interessa perdê-la.

Voltando às sanções, acho que os EUA tem grande chance de vencer essa batalha da sua guerra contra o governo de Teerã.

A China não vai ceder ao boicote internacional do petróleo iraniano, no entanto, ainda que a Índia lhe faça companhia, as duas juntas compram apenas 50% do total. Uma eventual recusa da Turquia aos desígnios yankees pouco acrescentaria.

A economia iraniana que já cambaleia por efeito das sanções se veria alvo de um novo e devastador ataque.

Claro, o principal sacrificado será o povo do Irã.

A crise econômica trouxe um desemprego cada vez maior.

Com o boicote às importações, faltam uma série de alimentos e medicamentos produzidos no exterior, essenciais.

Decorrentes destas carências, a fome se espalha pelos bairros pobres, junto com os mais sérios problemas de saúde.

O governo americano garante que autoriza as transações humanitária, importações de alimentos e remédios para o povo iraniano.

Não é bem assim.

As transações humanitárias tem de passar também pelos bancos internacionais, que as evitam pois temem problemas com o Tesouro dos EUA, sempre pronto a descobrir possíveis irregularidades e distribuir fartas sanções.

Longe de facilitar as coisas para atender às necessidades do povo , o governo Trump as dificulta. Acaba de colocar o Persian Bank numa lista dos 50 bancos iranianos com quem nenhum banco do exterior pode efetuar transações.

O Persian, um dos líderes do setor dos bancos privados do Irã, tem sido um canal essencial para o comércio humanitário com a Europa (LobeLog, 5 de novembro de 2018).

Em outubro de 2018, a Corte Internacional de Justiça da ONU (CIJ) condenou a re-imposição de sanções ao Irã e ordenou a Washington que suspendesse as medidas restritivas relativas ao comércio humanitário de alimentos e medicamentos e à aviação civil.

Faz sentido.

Se um país ameaçasse outro país com uma sucessão ininterrupta de bombardeios arrasadores, caso não atendesse a suas exigências, seria um escândalo de repercussão universal.

As sanções que atingem o Irã são, pelo menos a médio prazo, tão letais quanto ataques de mísseis e outras bombas de efeito destruidor.

Não estou informando nenhuma novidade.

Os estadistas dos quatro continentes estão carecas de saber que as coisas são assim.

Infelizmente, ninguém condena os EUA por estarem submetendo o povo iraniano aos efeitos similares de uma operação militar de grande impacto.

O que torna estas sanções particularmente condenáveis é que não tem uma causa justa, como por exemplo o boicote da África do Sul, criado para forçar o fim do apartheid.

As presentes sanções visam destruir o regime iraniano, em benefício dos interesses hegemônicos no Oriente Médio dos EUA e seus associados, Israel e Arábia Saudita.

Não dá para aceitar que o mundo inteiro, tendo à frente as principais potências europeias, mais a China e a Rússia, estivesse errado ao aprovar o Acordo Nuclear com o Irã.

Absurdo supor que fosse correto  um único país, os EUA,  rejeitá-lo, e condenado o povo iraniano a duras sanções.

N primeira metade dos século 20, a extinta Liga das Nações e os governantes do Reino Unido e da França foram ineficazes nas  concessões feitas para impedir que uma potência impusesse seu poder sobre a Europa.

A ONU e os estadistas europeus de hoje vão pelo mesmo caminho.

Fazem de conta que acham normal o uso rotineiro das sanções pelo sucessor de Barack Obama.

Referindo-se aos EUA, disse o grande diretor de cinema americano, Oliver Stone:

“ Não estamos sob ameaça. Nós somos a ameaça.”

 

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