Muito barulho por nada.

Depois de condenar repetidas vezes a guerra do Afeganistão como um “terrível erro”, “desastre total”, “completo desperdício de dinheiro”, Trump voltou a traz.

Na sua nova estratégia, o exército americano, permanecerá no país, enquanto for necessário. Mais exatamente até liquidar o serviço.

Explicou sua mudança, afirmando que, depois de empossado, sentiu ser necessário ter um conhecimento aprofundado sobre a questão afegã e assuntos relacionados. “Portanto, eu estudei o Afeganistão detalhadamente e em cada ângulo concebível. ”

Parece que foi um mau aluno.

Trump diz que o povo americano está cansado de derrotas. Agora seria diferente. O exército americano lutaria até a vitória, sem limite de prazo.

Em História, Trump levou zero pois não aprendeu que o Afeganistão é chamado de cemitério dos impérios, porque nenhum deles conseguiu conquista-lo. Nem mesmo o grande Alexandre Magno. E evidentemente era um general muitas vezes melhor do quer Mattis ou MacMaster ou mesmo DuRnford.

Mais uma nota baixa pela sua afirmação de que o povo americano está cansado de guerras sem vitórias.

Lamentável que ele não tenha lido pesquisas sobre esse tema.

Elas mostram que os habitantes dos EUA estão cansados é de guerras. O que eles desejam é paz e um presidente preocupado com o bem estar geral, não em empreender sucessivas intervenções militares, onde os grandes vencedores são os donos das indústrias de armamentos.

Num claro ataque à estratégia do ex-presidente Obama em terminar a guerra do Afeganistão, The Donald declarou: “uma retirada total criaria um vácuo que os terroristas, incluindo o ISIS e a Al Qaeda, imediatamente ocupariam. ”

Errado! Sabe-se que a al Qaeda, reduzida ao mínimo nos tempos de Saddam Hussein, cresceu, ganhando “os corações e mentes” e a adesão de numerosos iraquianos, justamente devido à sua luta contra a ocupação americana do Iraque.

O ISIS se origina da al Qaeda. Elementos mais radicais do movimento se sentiram descontentes com suas ações, que consideravam “brandas”. Então, desligaram-se da al Qaeda e fundaram o ISIS, justamente para atacar com a maior violência os odiados ocidentais e fiéis do islamismo xiita, que eles consideram hereges.

Durante sua falação, o presidente americano afirmou que os custos da guerra passariam a serem pagos pela economia afegã. Existiriam imensas reservas de minérios que, devidamente exploradas, renderiam bilhões para pagar as despesas militares dos EUA no país (por sinal, já atingiram quase 1 trilhão de dólares).

Por enquanto, os lucros dessas riquezas não passaram do terreno das fantasias.

Também nos EUA e na América Latina (principalmente) existem grandes reservas minerais, pouco exploradas pelas mineradoras pois o preço dessas commodities atualmente estão em baixa.

Um dia vão subir, é lógico, mas as grandes mineradoras provavelmente vão achar mais seguro investir nas reservas inexploradas do Ocidente, do que nas afegãs, onde ficariam sujeitas a ataques e saques dos talibãs.

Por mais bizarro que Trump seja, não acredito que ele vá cobrar taxas dos produtores de ópio (o Afeganistão é líder mundial absoluto) para se ressarcir das despesas militares do seu país. Como, aliás, o Talibã costuma fazer.

Bizarra é a afirmação de que os EUA não serão mais nations builders, ou seja, não gastarão mais tempo e dinheiro para reorganizar países imersos no caos ou sem instituições democráticas. O objetivo das forças do governo se limitará ao contra- terrorismo.

Quer dizer que vão abandonar o Afeganistão à corrupção, à desordem, ao tráfico de ópio, aos senhores da guerra e mesmo à falência?

Seria muito perigoso.

Sem a supervisão administrativa de Tio Sam, o país mergulharia numa situação ainda mais caótica, beneficiando àqueles que se sentem mais à vontade num clima assim. Ou seja, os talibãs.

Em outra verdade dura apresentada por The Donald, ele culpa o Paquistão por ajudar os talibãs, pela prática do pecado da omissão.

“Nós temos pago ao Paquistão bilhões e bilhões de dólares, ao mesmo tempo eles dão abrigo aos mesmos terroristas que nós estamos combatendo.”

Ele se referia ao fato dos talibãs, principalmente para fugir aos ataques dos EUA, atravessarem a fronteira com o Paquistão, onde permanecem até julgarem conveniente para voltar às suas agressões no território afegão.

O governo de Cabul os deixa em paz, ou por não ter condições de vigiar toda a fronteira com o Afeganistão. Ou, dizem as más línguas, por necessidades táticas, tem aceitado a presença de certos grupos talibãs inimigos de terroristas paquistaneses.

O governo de Islamabad sentiu-se ofendido pelas críticas e respondeu também reclamando: “O Paquistão não permite o uso de seu território contra qualquer outra nação. Em vez de confiar em falsas histórias de “santuários seguros”, os EUA precisam trabalhar com o Paquistão para erradicar o terrorismo.

Um dia depois, o primeiro-ministro do Paquistão devolveu a bola: “Nós gostaríamos de ver esforços militares eficientes e imediatos dos EUA para eliminar santuários que dão abrigo a terroristas em solo afegão, incluindo aqueles responsáveis por fomentar o terror no Paquistão (Reuters, 24-8). ”

O que não deixa de ser verdade pois também terroristas paquistaneses costumam atravessar a fronteira em sentido contrário para buscar refúgio dos ataques do exército de Islamabad. E as tropas americanas não conseguem impedir este trânsito, nem prender os visitantes incômodos, que ficam à vontade até chegar o momento de voltarem ao Paquistão para agir contra seu governo.

Depois de dar uma dura no governo aliado, o presidente anunciou mais uma medida , digamos, um tanto                                                                                                                                                                                                                                                                      discutível: os EUA não mais informarão ao público os números relativo a reforços enviados ao Afeganistão para não permitir que os inimigos os usem em benefício de suas tropelias. Outro número também sonegado será o total dos soldados americanos envolvidos nos combates.

A justificação me parece pouco real.

Vejo nessa medida uma intenção de sonegar dados ao povo americano para evitar possíveis insatisfações de aficionados do presidente. Que certamente seriam inevitáveis quando se ocultasse o número de mortos e feridos.

Num tempo em que a transparência é um valor altamente destacado, esconder os fatos não é muito próprio de um governo democrático. É frequente nos regimes sob influência de militares, que não se consideram empregados do público, mas sim cidadãos que não tem contas a prestar àqueles que pagam seus salários, através dos impostos.

É o que está ocorrendo nos EUA.

Se os generais, que dão as cartas na política externa americana, ouvissem o povo, talvez os EUA não estariam preocupados em continuar guerreando pelos anos à fora-Veja os resultados de uma recente pesquisa Político/Morning Consult: pessoas favoráveis ao aumento de tropas no Afeganistão- 23%, redução do número de soldados- 37%, permanência do mesmo número de soldados- 24%.

Resumindo a nova estratégia do governo Trump: os soldados americanos ficarão no Afeganistão até vencerem, num prazo indefinido; quem pagará as despesas militares será o próprio país governado de Cabul, com os recursos das reservas, a serem exploradas num futuro provavelmente remoto; o governo jamais dirá quantos soldados tem engajados na luta ou serão  enviados como reforço ; o Paquistão terá de expulsar todos os talibã refugiados no país, ou possivelmente perderá as generosas dádivas do Tesouro americano; os EUA não se envolverão mais na reorganização do Afeganistão, agindo apenas contra os terroristas.

No governo Obama, falava-se em prazos para a retirada total. No fim, a maioria dos soldados foi embora mas deixou-se um contingente de 8.400 militares, para  treinar os soldados afegãos e, eventualmente, participar de ações militares isoladas, Na prática, porém, eles combateram muitas vezes.

Esta estratégia foi de curta duração.

Trump voltou ao que era, antes de Obama dar prazos para reduzir suas forças e visualizar uma retirada final logo que o exército paquistanês tivesse condições de enfrentar os talibãs sem ajuda externa.

Tirando algumas fantasias, apelos, ameaças e jogadas para desinformar o povo, continua o mesmo que, desde o começo, norteia a estratégia de Tio Sam: foco na vitória; permanência indefinida; envio de reforços quando o governo achar conveniente; não aceitar exigência talibãs de retirada americana para negociarem a paz; pressão para que o Paquistão colabore, barrando a entrada de talibãs.

Apesar de ser clara a influência dos generais que cercam Trump na Casa Branca na elaboração do “novo” plano da guerra do Afeganistão, um bom número de militares de alta patente o desprezam como dejá vu e ineficaz.

O analista Mark Perry, em artigo no The Conservative de 22 de agosto, cita um oficial do Pentágono, que diz: “Este Plano Trompa,pelo menos ao que eu entendo, me parece muito o tipo de plano nós temos apresentado novamente e novamente, desde o fim da 2ª-Grande Guerra. Neste prédio (o Pentágono), há uma porção de ceticismo. É porque nós todos sabemos o que esta nova estratégia significa – e o que ela significa é que o único caminho para sair do Afeganistão é avançar mais. Sabe, me parece que, se existe alguma coisa que nós aprendemos é que isso não funciona. ”

Em suma, muito barulho por nada.

Ou, sendo otimista, por quase nada

 

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