Licença para matar crianças.

Há quase quatro anos, a Arábia Saudita liderou um grupo de nações iniciando uma

guerra que parecia fácil.

O objetivo era recolocar no poder o presidente Hadi, derrubado pelos

guerrilheiros houthis.

Uma sucessão de bombardeios maciços, destruindo tudo e todos, forçaria

os rebeldes a se renderem rapidamente.

Por enquanto, isso não aconteceu.

Mas a coalisão saudita não deixou de apresentar resultados: causou no

Iêmen o maior desastre humanitário do nosso tempo, conforme as Nações

Unidas.

Por efeito das bombas e mísseis, três milhões e cem mil civis

foram desalojados, 22 milhões e duzentos mil (75% da população)

precisam de assistência humanitária, sendo essa necessidade urgente

para 11 milhões e trezentos mil deles. Caso não venha logo,

8 milhões e quatrocentos mil estão arriscados de morrerem de fome

(Esquire, 23 de julho).

As crianças iemenitas vem sendo particularmente sacrificadas.

Severa má nutrição aguda ameaça as vidas de 462 mil meninos e meninas

com menos de cinco anos. Mais de 11 milhões menores de 18 anos, 80%

da população dessa faixa de idade, enfrentam escassez de alimentos,

doenças graves e falta de acesso a serviços sociais básicos.

Segundo a UNICEF, uma criança iemenita morre a cada 10 minutos,

número que cresceu 200% em relação a antes da invasão saudita.

Fatos assim levaram Meritxell Relano, representante da UNICEF no Iêmen, a desabafar: “O conflito transformou a vida das crianças do Iêmen num inferno (Reuters, 13 de setembro).”

Infelizmente, a comunidade internacional tem se omitido, a coalisão liderada pelos sauditas segue fazendo ações que são verdadeiros crimes de guerra e não há perspectivas próximas de paz.

O parlamento da União Europeia fez o que podia. Aprovou uma resolução acusando o reino saudita de violação dos direitos humanos e conclamando os países membros a não exportarem armas para o exército do rei Salman e seu herdeiro coroado, o príncipe Mohamed bin Salman. 525 deputados votaram a favor, com 13 contrários e 81 abstenções.

Alemanha, Suécia, Noruega, Finlândia e Bélgica já suspenderam suas exportações de armamentos para a Arábia Saudita e países coligados (Middle East Eye, 11 de setembro).

Leis dos EUA exigem que idêntica medida seja tomada contra países que usem armas americanas para matar civis ou violar as leis humanitárias internacionais.

0 departamento de Estado dos EUA, desde os tempos do governo Obama, faz de conta que os sauditas e seus aliados não se enquadram nas duas transgressões. Fatos, aliás, mais do que comprovados por relatórios de comissões da ONU e estudos de várias organizações de direitos humanos.

Um episódio particularmente chocante veio tirar a opinião pública dos EUA de sua letargia diante da guerra do Iêmen.

Aviões sauditas bombardearam um ônibus escolar matando 40 crianças.

Havia fundadas suspeitas de que os aviadores sauditas usaram bombas americanas no seu ataque.

A opinião pública americana sentiu-se fortemente chocada.

A imprensa refletiu com destaque mais essa barbaridade da coalisão liderada pelos sauditas. Políticos foram à TV e à tribuna das duas casas do Congresso para demonstrarem seu horror.

Alguns congressistas agiram: conseguiram que a Casa dos Representantes aprovasse emenda ao Ato de Autorização da Defesa Nacional (NDA) referente a 2019, solicitando a interrupção do apoio bélico ao reino saudita e aliados caso não tomassem medidas severas para reduzir sensivelmente as mortes de civis. Na eventualidade do rei e do príncipe saudita tivessem coração, caberia ao governo do presidente Trump certificar que eles estavam realmente empenhados em evitar que suas bombas matassem um número excessivo de civis inocentes (The Hill, 9 de setembro).

Frustação total!

Mike Pompeo, o secretário de Estado, apressou-se a certificar que o governo da Arábia Saudita havia cumprindo seu dever humano, com “ações demonstráveis”, em benefício dos civis do território houthi.

James Mathis, secretário da Defesa, somou-se a seu colega, endossando a certificação. Conforme esse general “nossa conduta (dos EUA) tem sido fazer com que o custo humano de inocente, s sendo acidentalmente mortos, fosse o mínimo absoluto.”

Seria cômico se não fosse trágico.

Não existe nem sombra de qualquer modificação nos procedimentos bélicos da coalisão liderada pela Arábia Saudita.

Pelo contrário, pouco tempo depois do bombardeio do ônibus escolar, os aviões do governo de Riadh alvejaram novamente crianças inocentes matando mais 26 delas.

O príncipe Mohamed bin Salman não deve estar muito chateado com o

infanticídio promovido por suas forças.

Anteriormene, ele tinha deixado escapar que desejava “deixar um grande

impacto na consciência de gerações iemenitas. Queremos que suas

crianças, mulheres e mesmo seus homens tremam sempre que o nome

Arábia Saudita seja mencionado (Middle East Monitor, 27 de agosto).”

Seria um contrassenso que esse moderno Herodes efetuasse “ações

demonstráveis” para reduzir o número de iemenitas inocentes vitimizados

pelas bombas dos seus aviões.

Com a impunidade garantida pela certificação do governo Trump aos ataques sauditas, os desejos sinistros do príncipe Mohamed bin Salman tem as maiores chances de serem realizados.

Comentando a forma com que Pompeo driblou a emenda congressual, Larry Lewis, ex-conselheiro do departamento de Estado dos EUA junto à Arábia Saudita, afirmou que a declaração do secretário de Estado era “objetivamente falsa (Reuters, 12 de setembro).”

Entre muitas organizações humanitárias, a altamente conceituada OXFAM, conceituada organização de direitos humanos não adoçou suas opiniões: “A administração Trompa está abertamente desafiando e mentindo para o Congresso. Os membros do Congresso devem agir para impedir a cumplicidade dos EUA nessa guerra.”

Os representantes e senadores americanos dificilmente atenderão a esse apelo.

O governo Trump tem o apoio dos republicanos, que atualmente dominam as duas casas do parlamento. Ele não tem o menor escrúpulo em apoiar essa brutal guerra da Arábia Saudita pois quer agradar seu precioso parceiro contra o Irã, país atualmente o inimigo-mor do morador da Casa Branca.

Há também outros motivos para ele manter e até aumentar o fluxo de armamentos para o governo de Riad, que é seu maior importador.

De acordo com Andrea Thompson, sub-secretário de Estado, as novas políticas introduzidas neste ano por The Donald vem estimulando as exportações e a produção das indústrias americanas de armas.

De fato, somente em seis meses de 2018, os EUA venderam a países aliados 46,9 bilhões de dólares desses mortais equipamentos, mais do que os 41,9 bilhões vendidos em todo o ano de 2017 (Defense News, 11 de setembro). Mais do que o total vendido pelos 7 maiores produtores de armas do mundo, depois do EUA.

Vem a propósito a seguinte reflexão de Dwight Eisenhower, ex-presidente dos EUA: “Cada canhão que é fabricado, cada vaso de guerra lançado, cada foguete disparado constitui um roubo daqueles que tem fome e não são alimentados, daqueles que tem frio e não são agasalhados. Cada nação que aplica seu tesouro na compra de armamentos está gastando mais do que dinheiro. Está gastando o suor dos seus trabalhadores, o gênio dos seus cientistas, as esperanças de suas crianças.”

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