Judeus negros importam.

Em Kyrit Haim, subúrbio de Haifa, Israel, um jovem etíope judeu foi baleado e morto por um policial, que alegou risco de vida. Testemunhas negaram esse perigo e o agente da lei foi detido.

Prontamente, as autoridades ordenaram um “rigoroso inquérito”. Ao mesmo tempo, o assassino foi removido da cadeia para uma tranquila prisão domiciliar.

A comunidade etíope reagiu contra a esse privilégio concedido a um assassino, promovendo violentas manifestações em Haifa e em outras partes de Israel.

Milhares de negros israelenses queimaram pneus, bloquearam ruas e cruzamentos estratégicos e atiraram pedras, paralisando o trânsito em vários locais.

A polícia tentou convencer os líderes dos protestos a realizarem manifestações pacíficas e ordeiras, mas não tiveram sucesso.

Para a comunidade etíope israelense somente com o bloqueio de vias públicas de grande movimento que causem paralisações, perturbando as ocupações diárias das pessoas, será possível chamar a atenção do israelense médio para a discriminação

Os fatos mostram que a sociedade é tolerante diante dos crimes cometidos por agentes públicos contra seus concidadãos de origem africana.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        .

Somente nos últimos anos, 11 deles foram assassinados, sem que seus assassinos, homens da lei, recebessem a punição adequada.

Em entrevista ao Al Monitor, de 3 de julho, um dos líderes dos protestos, Mula Atahu, declarou: “ “o policial atirou em Tekah por ser negro e porque sabia que não aconteceria nada com ele. É apenas um etíope, pensou. Outros policiais atiraram em etíopes e nada aconteceu com eles.”

E Mula revelou em tom duro: “Agora nós vamos mostrar que alguma coisa acontece e que nós não vamos ficar em silêncio sobre o incidente. A sociedade de Israel está podre e nós a vamos iluminar.”

O ex-chefe de Polícia, Roni Eisheikh, concorda que existe tratamento diferenciado aos negros. Ele admitiu ao al Monitor que os oficiais de polícia costumam ver os etíopes como suspeitos prováveis.

Atualmente, vivem em Israel 145 mil etíopes. Historiadores dizem que descendem do imperador Menelique I, filho do rei Salomão e da rainha de Sabá, que governaram a Etiópia em 950 AC. São portanto judeus- etíopes, que mantiveram a religião e os costumes de seus ancestrais durante muitos séculos.

Em 1950, temendo que os árabes israelenses acabassem superando o número de judeus do país, o governo de Telaviv promoveu uma entrada em massa de etíopes, vindos de uma região onde a religião judaica era dominante.

Outras ondas de etíopes foram trazidas nos anos 80 e 90. Sendo judeus, todos eles receberam cidadania israelense, de acordo com a Lei Geral de Israel.

Nos dias de hoje, os judeus etíopes não são mais bem vistos pois deixaram de ser necessários para ajudar a manter o caráter judaico do Estado de Israel.

Agora, fala-se muito em “ameaça africana”, referindo-se a negros oriundos de vários países do continente, não importa a sua religião (TRT WORLD, 9 de janeiro).

Embora o governo procure garantir aos judeus etíopes direitos iguais aos dos cidadãos brancos, a que, aliás, fazem jus, sua inserção na sociedade israelense está sendo extremamente difícil.

Muito proprietários de imóveis negam alugar a africanos, mesmo sendo judeus etíopes.

Em 1996, constatou-se que diversos hospitais jogavam fora sangue doados por essa etnia. Em 2013, tal prática foi flagrada novamente quando a parlamentar etíope Prina-Tamano Shata teve uma doação de sangue rejeitada pelo Magen David Adom, serviço médico de emergência. Segundo o site Ynetnews, “pessoas da equipe lhe disseram que ela poderia doar sangue, mas sua doação seria congelada, não sendo utilizada. ”

Em 2013, o jornal Haaretz relatou que quase 52% das famílias de judeus etíopes viviam abaixo da linha da pobreza, a maioria em verdadeiras favelas

Pretendendo justificar a habitual hostilidade dos policiais em relação a negros em geral, disse Roy Alsheysh, chefe de polícia: “Quando há uma comunidade mais vezes envolvida em crimes- e aqui lembro árabes ou de Jerusalém Oriental, e as estatísticas são conhecidas – quando um oficial de polícia encontra um suspeito (de origem africana) é natural que suspeite mais dele do que de algum outro.”

Como uma consequência, Ziva Mekonem-Degu, da Associação dos Judeus Etíopes, relata: ”pelo menos um membro de cada família etíope já foi presa, detida ou objeto de investigação criminal.”

Ainda que os israelenses etíopes sejam vítimas de preconceitos racistas, são tratados de forma muito melhor do que os sudaneses e eritreus, que, diferente deles, não são cidadãos judeus, legalmente protegidos.

Existem 45 mil migrantes eritreus e sudaneses, que entraram em Israel em busca de asilo, fugindo das violências que sofriam em seus países. Confiaram na generosidade de um povo que foi o mais perseguido na história da humanidade.

Mas não encontraram nada disso.

Alvos dos ataques de políticos racistas, da mídia sensacionalista e até de figuras de destaque do governo, eles são vistos de modo geral como “intrusos infiltrados”. Gente perigosa, de maus costumes,  “um lixo”.  

Em entrevista ao Haaretz, a parlamentar Miri Regev afirmou que os sudaneses são um câncer em nosso corpo. E o colega, Danny Danon, garantiu que os migrantes são “um estado inimigo de infiltrados que se estabeleceram em Israel.”

O primeiro-ministro Netanyhau  nega que esses africanos estejam fugindo de brutalidades e perseguições em seus países de origem, não tendo portanto, direito a asilo: “eles não são refugiados, mas migrantes econômicos”… “estrangeiros ilegais que não pertencem a nosso país.”

Essa opinião parece compartilhada por governos anteriores. Desde 1948, apenas 200 migrantes eritreus e sudaneses tiveram residência legalizada oficialmente. Informa o Centro de Desenvolvimento dos Refugiados Africanos que menos de 1% dos pedidos de cidadania costumam ser atendidos.

Netanyahu gostaria de adotar deportações generalizadas para o que ele considera um problema de Israel, mas a ONU proíbe  expulsão de estrangeiros em busca de asilo.

O que as autoridades tem feito é procurar tornar insuportável a vida dos migrantes africanos. Assim, em 2014, o parlamento de Israel aprovou lei estabelecendo pena de três anos de prisão aos migrantes ilegais.

Posteriormente, o primeiro-ministro foi ainda mais longe. Nova lei confisca 20% de todos os salários dos migrantes, colocando-os em contas especiais, que só poderão ser resgatadas quando eles saírem do país.

Os que preferiram ficar passaram a viver em condições precárias devido ao corte salarial de 20%, que lhes deixa recursos insuficientes à sua subsistência.

Para poderem sobreviver, um número substancial de mulheres se tornaram prostitutas, muitos eritreus e sudaneses trabalham no mercado negro e há famílias que deixaram de pagar o seguro médico dos seus filhos, usando essa poupança forçada para comprar alimentos.

Falam por si, em 2017, o aumento de 50% no total de sudaneses e eritreus desempregados e de 33% nos pedidos de assistência alimentar (Times of Israel, 15 de agosto de 2017).

“Eles (os migrantes africanos) já eram pobres. Agora são ainda mais pobres”, diz Sigal Rizen, da organização israelense de Ajuda a Refugiados e Migrantes.

Como os resultados da lei de corte dos 20% não foram os desejados, Netanyahu resolveu aumentar a pressão a um nível particularmente desumano.

Em janeiro de 2018, uma nova lei vinha impunha um ultimato aos africanos: receberiam 3.500 dólares se mudassem para outra nação do seu continente, caso contrário arriscavam-se passar o resto de suas vidas na cadeia.

Comentando sua nova lei, o primeiro-ministro ponderou: ”Eles (africanos ”infiltrados”) cooperam conosco e vão embora voluntariamente, respeitosamente e legalmente, ou nós temos outras “ferramentas” (prisão indefinida) à nossa disposição, que também estão de acordo com a lei.”

Lembro que os crimes de Adolf Hitler também  estavam de acordo com leis.

“Voluntariamente” não me parece uma palavra correta para definir uma situação em que você aceita determinada opção para não ser preso para sempre.

Pesquisa comprovou que uma maioria de 56% da população  de Israel aprovava a nova lei.  

Entre os 32% críticos estava Dov Henin, do partido Meretz, que a declarou imoral, afirmando: “ Os judeus, frequentes vítimas de perseguições no passado, deveriam demonstrar compaixão em relação aos africanos.”

Numa demonstração de solidariedade, os pilotos da El Al (Linha aérea de Israel) se recusaram a voar transportando africanos deportados. Achavam “uma barbaridade”. E 150 tripulações  os apoiaram e ainda apelaram para que o pessoal das outras linhas aéreas fizesse o mesmo.

Uniram-se também na rejeição ao ultimato do governo diversos médicos e grupo de rabinos, liderados pela rabina Susan Silverman, que propôs que todos adotassem um programa de desobediência civil. Eles toparam e, dirigindo-se a habitantes dos kibutz e a comunidades de sinagogas, pediram voluntários para esconder migrantes africanos ameaçados de deportação.

Para que o plano de Netanyahu desse certo era preciso que alguns países africanos concordassem em receber os migrantes eritreus e sudaneses. Como nenhum topou, a lei teve de ser cancelada.

Bibi ainda conseguiu fechar com a ONU um acordo para que os  eritreus e sudaneses fossem viver em países do Ocidente, mas acabou dando em nada. Deputados da coalizão que governava Israel foram contra, achavam que o acordo não era duro o suficiente para lidar com africanos recalcitrantes (Minority Rights Group, 17 de abril). 

Em 4 de julho deste ano, enquanto os migrantes eritreus e sudaneses, que não são judeus nem cidadãos de Israel, são tratados como marginais os mais “privilegiados” judeus etíopes,  continuaram bloqueando ruas e brigando com a polícia no protesto conta o assassinato do jovem Tekah por um policial.

Foram 3 dias de choques violentos, que pararam cidades, espalharam  a insegurança, chocaram a sociedade.

Os judeus etíopes de Israel acreditam que só assim atingirão os cidadãos comuns, de ideia moderadas, arrancando-os de sua zona de conforto para os conscientizar das injustiças que os cercam.

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