I-Patriotismo fake.

A proposta do premier Macron, de intervenção internacional na Amazônia para salvar o planeta, pegou muito mal. Sua rejeição around the world foi unânime, até mesmo por países críticos da política brasileira na região. Ângela Merkel, estreita aliada do chefe do governo de Paris,  considerou inaceitável o destempero francês.

Diante dessas desconfortáveis repercussões, o próprio Macron, envergonhado, não falou mais nisso e esqueceu a ideia de levar a questão à ONU.

Mas o governo Bolsonaro não deixou as coisas ficarem por aí. Aproveitou a circunstância para lançar-se a uma pregação patriótica, invocando a violação da soberania nacional e denunciando uma conspiração estrangeira para tomar a Amazônia.

Como era de se esperar, seus aliados civis e militares, ecoaram as falas presidenciais.

Os críticos da política ambiental do governo, como as ONGs, a ONU, a Igreja Católica, jornais, países da Europa e personalidades dos quatro continentes são atacados como belicosos agentes de interesses internacionais.

É tão grave que o general Villas Boas, assessor especial do Planalto, fala, e reitera em outra oportunidade, que Macron nos ameaça até com uma invasão.

Esta nova onda patriótica veio em bom momento para o presidente Bolsonaro. Combalido por pesquisas que rebaixam sua popularidade sem cessar, ele assumiu a liderança do patriotismo “contra os intervencionistas do exterior e seus sicários nacionais.”

Para enfrentar as sucessiva denúncias de suas malfeitorias no meio ambiente, ele usa o velho expediente de atacar os críticos, não as críticas.

Embalando esse discutível conteúdo vem sempre a acusação de que tudo não passaria de falsidades engendradas pela cupidez internacional, de olho na captura das riquezas da Amazônia. Que maus brasileiros apoiam, divulgando fatos negativos que enfraquecem a posição brasileira no concerto ds nações.

O ardor patriótico do presidente, apoiado pelo povo, seria a força que derrotaria as forças do mal, do globalismo cultural marxista e da esquerda traidora.

Cabem muitos reparos a toda esta construção.

Em primeiro lugar, as críticas e soluções vindas de nações ameaçadas pela devastação da Amazônia, das bem intencionadas ONGs e da Igreja Católica da região são legítimas pois seu alvo é a proteção dos valores humanos, que pertencem ao DNA de todos habitantes deste planeta.

Em segundo lugar, a soberania do Brasil não está em causa pois, de acordo com as convenções internacionais e os países que as apoiaram (todo o mundo civilizado) soberania é um princípio respeitado, sem contestações, desde o fim do colonialismo. Recentemente, Macron saiu do sério, ao declarar sua intenção de violá-la, mas, como se sabe, foi criticado urbi et orbes e engavetou sua absurda ideia.

No entanto, assim como um país tem direito de recusar propostas de outras nações, estas nações, caso se sintam ameaçadas, tem o direito de reagir. Mas, que seja de forma não violenta. Por exemplo: cortando importações do país em causa. Desde, é claro, que a causa das sanções seja reconhecida como justa pela comunidade internacional. Foi o que aconteceu com o boicote internacional dos produtos da África do Sul para forçar seu governo a abandonar o regime do apartheid.

Ao sancionar pesadamente a economia iraniana, Trump  contradiz o exposto, já que os motivos por ele alegado para sancionar a economia iraniana nada tem a ver com a justiça – relacionam-se apenas a interesses políticos particulares do seu governo.

Mas é uma exceção única, que é aceita porque os EUA dispõem de tais poderes políticos e econômicos que colocam o país acima da lei.

Em terceiro lugar, enquanto não houver uma tentativa clara de estrangeiros tomarem a Amazônia, não tem sentido vir com este mantra de soberania ameaçada, diante de qualquer solução oriunda do exterior.

Chamar de traidor quem denuncia nossos problemas, com a justificação de que isso prejudica a imagem externa do Brasil é piada. A revelação do aumento inusitado dos incêndios e desmatamentos na Amazônia durante os 8 meses de Bolsonaro só depõe contra seu governo, não contra o país Brasil.

Não se vence nenhuma situação de crise simplesmente  enfiando debaixo do tapete ou negando suas dimensões. Quem denuncia a situação crítica por que passa a Amazônia deveria ser premiado, não despedido como foi o presidente do INPE. Graças às suas informações que a sociedade brasileira e a comunidade internacional tomaram consciência do tamanho do dano e da necessidade de ações múltiplas e urgentes.

Foi mal para o governo Bolsonaro, no qual esses índices incômodos vêm florescendo? Foi. Mas, ao contrário do que pensam o presidente e seus áulicos, o interesse do Brasil deveria ficar acima dos interesses políticos do grupo e do seu líder.

Na minha opinião, trata-se do princípio básico do verdadeiro patriotismo.

É simples assim.

Na próxima edição do Olhar o Mundo publicarei um segundo artigo sobre este assunto, mostrando até onde vai o patriotismo do presidente Bolsonaro.

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