Guerra química americana no Vietnam faz vitimas…americanas.

Quando o senador John McCain anunciou que voltaria ao Congresso para votar o Obamacare, Trump soltou foguetes.

Era um herói americano, disse The Donald, pois, apesar de sofrer de câncer no cérebro, fazia questão de cumprir seu dever com a pátria.

Deveria pensar mais no que fala.

O presidente esqueceu-se de que McCain, mesmo sendo um dos líderes do grupo justamente apelidado de war party (partido da guerra), era um homem de convicções. E de coragem para as manter.

Foi dele o voto decisivo que, ao invés de derrubar o Obamacare, como sonhava Trump, derrubou o arremedo de sistema de saúde de autoria dos republicanos.

Apesar de suas posturas militaristas, McCain é um senador respeitado até pelos democratas de todos os matizes.

Certamente, irão brilhar na sua biografia as críticas contundentes que fez, em 2008, ao então presidente George W.Bush que defendia o uso do tenebroso waterboarding como “técnica” perfeitamente legal.

Infelizmente aquele presidente, por baixo do pano, deixou a CIA à vontade para praticar seus desumanos métodos de interrogação.

Quando, em 2016, o recém-eleito Donald Trump esboçou uma aprovação dos chamados “interrogatórios vigorosos”, o senador foi ríspido: “Nem pense em torturas, Trump”!

Como também o general Mattis protestou, o presidente republicano acabou deixando por isso mesmo.

O câncer no cérebro é uma doença terrível, com altíssimo índice de mortalidade. O povo americano ficou solidário com McCain, em sua luta contra um destino que prometia ser extremamente doloroso.

Este affair chamou a atenção para um pleito das muitas viúvas de veteranos da guerra do Vietnam que morreram de câncer no cérebro, a mesma doença que ataca John McCain.

Elas requerem indenizações, culpando o governo dos EUA por certas estratégias que seriam responsáveis pelas mortes prematuras dos maridos delas.

Durante os 10 anos da guerra do Vietnam (de 1961 a 1971), a aviação americana jogou 80 milhões de litros de toxinas sobre o Vietnam do Norte, com o fim de matar vietcongs e soldados do exército inimigo, além de destruir as safras e as matas onde eles se escondiam.

A toxina usada nos bombardeios foi, em geral, o chamado agente laranja.

Em 2009, detectou-se que as regiões atacadas apresentavam níveis desse veneno 300 a 400 vezes acima do limite tolerado.

4.8 milhões de vietnamitas foram expostos ao agente laranja. Homens, mulheres e crianças sofreram seus efeitos, tornaram-se sujeitos a doenças irreversíveis, más formações congênitas, câncer e síndromes neurológicas.

26 mil aldeias continuavam afetadas, com um saldo de 3 milhões de habitantes vitimados.

Mais de 25% das florestas do país – cerca de 3 milhões de hectares – tiveram seu habitat natural fortemente alterado, sendo contaminados os solos e lençóis frenáticos.

Na segunda e também na terceira das gerações nascidas depois da guerra, constatou-se nas crianças vasta incidência de deficiências, como síndrome de Down, paralisia cerebral e desfiguração facial extrema.

Mas a ação do agente laranja atravessou o Oceano Pacífico.

Os EUA também acabaram sofrendo os efeitos dos ataques químicos que moveram contra o Vietnam do Norte.

Dois milhões e seiscentos mil militares americanos foram expostos ao agente laranja. E o veneno penetrou em grande parte deles. Para se ter uma ideia do volume das pessoas atingidas, em 2011, o governo de Washington contabilizou um total de 17 bilhões de dólares pagos até então a veteranos incapacitados por culpa da arma química que usou no Vietnam.

A política atual da agência que cuida dos veteranos é de indenizar as viúvas dos doentes (além dos sobreviventes) que apresentaram uma de 14 moléstias, consideradas causadas pelo agente laranja.

O câncer no cérebro não faz parte da lista.

Quem requerer indenização com base nessa doença precisa recorrer ao Conselho de Apelos dos Veteranos (VA), um tribunal que julga esses casos O processo demora muitos anos e, em geral, não chega a resultados favoráveis.

Até agora não tem sido fácil encontrar provas da relação agente laranja-doença.

De 2009 até o verão deste ano, o Conselho de Apelos dos Veteranos já julgou cerca de 100 casos, onde viúvas de ex-soldados pediram a revisão de decisões que lhes negaram o benefício solicitado.

Há um forte movimento de veteranos doentes e de viúvas para colocar o câncer no cérebro na lista das doenças provocadas pelo agente laranja.

Baseiam-se numa das decisões do Conselho de Apelos dos Veteranos que dizia: ”As pesquisas médicas recentes mostram uma relação de causa e efeito entre a exposição ao herbicida (agente laranja) e o glioblastoma multiforme (câncer no cérebro). ”

Como se descobriu, as doenças causadas pelo agente laranja podem levar até muitos anos para aparecerem.

Os sinos dobram por aqueles que já morreram e os que ainda morrerão prematuramente, por conta dos líderes que decidiram usar uma arma da qual desconheciam os efeitos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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