Guerra econômica também mata.

Em maio de 1996, no programa “60 minutos”, referindo-se aos efeitos das sanções aplicadas no Iraque depois da 1ª Guerra do Golfo, Leslie Stahl perguntou a Madeleine Albright: “Ouvimos dizer que meio milhão de crianças morreram. Isso significa: mais crianças morreram do que em Hiroshima. Será que esse preço valeu à pena?”

E a secretária de Estado do então governo Bill Clinton respondeu: “Penso que foi uma decisão difícil, mas o preço, pensamos que o preço valeu à pena.”

Além da frieza implacável da sra. Albright e do governo que ela representava, essa declaração mostra que as guerras econômicas- das quais as sanções são a grande arma- matam.     E muito.

Disparando sanções em vez de mísseis, se pode destruir -ou pelo menos prejudicar bastante – a economia do inimigo e a vida de sua população. Isso, em geral, sem custos ou custos mínimos.

Os Estados Unidos de Donald Trump tem usado esse modo de guerrear com muita liberalidade, como enfatizou Nicolai N.Petro, professor de Ciência Política da Universidade de Rhode Island: “Os EUA estão viciados em sanções.”

Tio Sam diz que seriam justificáveis, pois sempre age por imperativos da justiça. Chegariam a ser até humanitárias. Um bombardeio de sanções teria vantagens sobre os bombardeios aéreos pois não destrói casas, hospitais, usinas, igrejas, edifícios…

E, o que é mais importante para um presidente americano de olho na reeleição, não se arrisca a vida dos bravos soldados americanos, evitando-se irritar o povo, hoje totalmente  contrário a conflagrações armadas.

Atualmente, os EUA estão empenhados em guerras econômicas contra nada menos do que 8 países: Irã, Coreia do Norte, Palestina, Rússia, Turquia, Cuba, Venezuela e Belarus. Some-se a esta lista negra alguns da África, também alvos das sanções americanas.

Apesar do feroz falcão John Bolton, conselheiro de Trump em segurança, negar, a guerra econômica contra o Irã visa, sim, derrubar o regime.

As verdadeiras motivações são liquidar um rival que se opõe aos magnos interesses americanos no Oriente Médio. E que, ainda por cima, disputa a hegemonia na região com a Arábia Saudita e bate bumbo pela queda do regime sionista em Israel. Lembro que os dois países são amigos fraternos do governo de Washington.

Para cortar as azas da república islâmica, The Donald foi buscar no seu arsenal uma arma de elevado poder letal: o fechamento do altamente lucrativo mercado americano para aqueles que ousarem negociar com Teerã.

Se der certo, a economia iraniana entrará em colapso, com desemprego, carência de alimentos, falência da saúde e da educação públicas e violenta queda da produção, trazendo consigo, fatalmente, revoltas populares.

Somente centenas de chuvas de mísseis (talvez milhares) poderiam causar danos semelhantes ao inimigo.

Já que não se acredita que o governo do Irã aceite modificar o acordo nuclear, como exigem Donald Trump e seu parceiro, Bibi Netanyahu, haveria uma retaliação à altura. Possivelmente o bloqueio da navegação no mar Índico – por onde passa o transporte do petróleo da Arábia Saudita e aliados, como já foi aventado, e/ou o reinício do programa nuclear iraniano, desta vez voltado para a fabricação de armas atômicas.

Qualquer dessas ações conduziria a uma guerra armada no Oriente Médio. Nesse caso, Trump prefere integrar o supporting cast (grupo de atores secundários), deixando o protagonismo e as perdas humanas para Israel e Arábia Saudita. Ou seja: os good fellas é que atacariam, usando armamentos e conselheiros fornecidos pelo Pentágono. Só se for absolutamente necessário aviões americanos entrariam na guerra.

As sanções anteriores ao Acordo Nuclear já causaram estrago na economia do Irã.

Embora não haja estatísticas de todas as vítimas civis, vou citar um caso particular. Estando o Irã impedido de importar aviões e as peças de reposição necessárias, seus aviões comerciais estão velhos e defasados, sem condições de operar com segurança. De acordo com informações oficiais, nos últimos 25 anos, 17 aviões caíram, com a morte de 1.500 pessoas. Um número muito maior do que a média de qualquer outro país.

Com o fim das sanções decorrente do Acordo Nuclear, os iranianos pretenderam resolver este problema, adquirindo 80  modernos aviões da Boeing e 100 da Airbus.

Mas, ao sair do Acordo Nuclear, Trump proibiu essa operação. Os negócios com a europeia Airbus também foram bloqueados, pois suas aeronaves usam peças da Boeing.

Assim, sem disparar um único tiro, The Donald condenou à morte muitos iranianos, passageiros dos inseguros aviões que deverão cair nos próximos anos.

Sacrifício desnecessário, efeito da guerra econômica movida pelos interesses em jogo dos EUA de Trump e dos países aliados.

São também interesses americanos que desencadearam a guerra econômica contra a Coreia do Norte.

Para mim, está claro que os europeus aprovaram as sanções da ONU por pressão de Washington. Não vejo como uma Coreia do Norte nuclearmente armada teria qualquer ganho em atacar o Velho Mundo.

Para a China, a Coreia do Sul e o Japão, é realmente desconfortável que um vizinho, governado pelo incerto Kim Jong, disponha de armas nucleares. Os EUA também têm suas razões para temer que o programa bélico nuclear coreano, ponha o território americano a mercê de engenhos tremendamente letais, em mãos de desafetos.

No entanto, através de garantias de segurança, acordos de paz e a inserção de Piongiang na economia internacional se poderia, eventualmente, acalmar seu ditador.

Certamente a Europa estava fora da mira nuclear norte-coreana, não tinha uma história de devastação e ódio com o país de Kim Jong Un, como os EUA tem.

Mas, os governos americanos costumam ter uma grande habilidade para tornar dos outros países, problemas que são só seus.

Para atender a Washington, a ONU aprovou sucessivas sanções contra a Coreia do Norte, levando seu povo a uma situação insuportável.

A falta de alimentos talvez seja o problema de efeitos mais dramáticos. A UNICEF calcula que 60 mil crianças norte-coreanas poderão morrer de fome neste ano, caso a pressão internacional continue obrigando as organizações humanitárias a reduzirem sua ajuda ao país (Businners Insiders, 30 de janeiro), sendo que atualmente já existem 200 mil crianças subnutridas.

Como se sabe, ditadores só prosperam enquanto amados por seu povo. Como Trump, Kim Jong talvez seja louco, mas não é burro. Por isso mesmo, acabou decidindo negociar o sepultamento de seus sonhos nucleares.

Os poucos líderes palestinos que acreditaram no “acordo do século” de Trump estão descobrindo com o poeta Calderon de la Barca que: “a vida é sonho, e os sonhos, sonhos são.”

A realidade está mais para pesadelo.

Com a divulgação de clausulas básicas do “acordo do século”, viu-se que só seria bom para o adversário número 1 da independência palestina, o primeiro-ministro de Israel, Bibi Netanyahu.

Coisas como justiça, direito internacional e equidade passariam muito longe das propostas de The Donald.

A ele interessa enfiar seu plano por goela abaixo dos palestinos e assim deixar feliz seus aliados: o governo, o povo de Israel e os seus respectivos lobbies que influenciam os congressistas, financiando suas campanhas eleitorais; a maioria dos senadores e representantes e a grande mídia, sempre pronta a amenizar as críticas às violações israelenses do direito internacional e dos direitos humanos palestinos. Não esquecendo os 25 milhões de evangélicos, para quem o judaísmo é irmão do cristianismo.

Para maior garantia, The Donald não esqueceu de pressionar os líderes palestinos a se comportarem de acordo com o script americano.

Ele cortou 300 milhões de dólares dos 364 milhões que fornecia à UNRWA- setor da ONU que cuida dos refugiados palestinos. É um terço de todos os recursos usados pela entidade para dar alimentação, educação e cuidados de saúde a essa pobre gente, fugida ou expulsa pelo exército israelense nas guerras de 1948 e 1967. Essa decisão, além de por em risco a prestação desses serviços, causará o desemprego de mil funcionários e redução dos salários dos que permanecerem.

Será um incentivo para que jovens famintos, sem assistência médica e sem escola se juntem aos grupos terroristas.

Trump fez mais: cancelou a ajuda de 400 milhões de dólares à Autoridade Palestina, necessários para financiar os serviços que presta à população da Cisjordânia ocupada e de Gaza.

Por enquanto, os movimentos palestinos resistem e seguem repelindo a falsa ajuda do presidente americano.

A história se repete no caso das sanções à Rússia de Putin, cujas ações externas os EUA desejam conter para brecar o fortalecimento do seu rival.

Em 2014, diante da anexação da Crimeia pelo governo de Moscou e seu apoio aos dissidentes do leste ucraniano, os EUA propuseram à União Europeia sanções para golpear a economia russa e assim obrigar Putin a voltar atrás.

O comércio do Kremlin com a Europa e os EUA ficaria reduzido ao mínimo. Os EUA perderiam negócios, mas isso não faria Obama ter insônia pois o comércio do seu país com a Rússia não chegava a 25 bilhões de dólares anuais.

Para a Europa seria diferente.

Em 2012, os lucros do comércio com a Rússia colocaram 370 bilhões de dólares nas economias de países da comunidade. A pesada retração que as sanções prometiam iria prejudicar vastos interesses de empresas da Europa Unida. Como a British Petroleum, a Shell e a ENI (italiana) que têm pesados investimentos no país. E as 6.200 empresas alemãs que operam na Rússia.

O Velho Mundo, a princípio, não topou. Ninguém queria interromper uma relação comercial que beneficiava a todos.

Mas alardeando os perigos da expansão da Rússia para a paz na Europa, Washington acabou convencendo a União Europeia. Moscou revidou, banindo importações de fruta, queijos e outros alimentos, o que deixou os fazendeiros europeus falando sozinhos.

E até agora não se entregou.

Comentando o assunto, em outubro de 2014, o vice-presidente Binden foi claro: “È verdade que eles (os europeus) não queriam fazer aquilo (as sanções). Foi a liderança americana e o presidente Obama, insistindo e quase tendo de constranger a Europa…”

O governo de Washington não precisou fazer muita força para impor o embargo econômico de Cuba à maioria dos países do chamado mundo livre.

Era 1962, a Guerra Fria rugia e assustava. A liderança americana era aceita universalmente, sem discussões.

Não fosse a grande ajuda da então União Soviética, não se sabe o que aconteceria com a ilha e seus habitantes.

Com o tempo, essa ajuda faltou, a Guerra Fria foi congelada, Cuba entrou em crise, as nações aliadas aos EUA foram voltando a ter relações inclusive econômicas com Havana, a ONU condenou o embargo durante os últimos 28 anos (só os EUA e Israel votam contra) e, por fim, 54 anos depois, no governo Obama, os americanos iniciaram um processo de reatamento que culminaria com o fim das sanções econômicas.

Trump interrompeu esse processo.

Falou mais alto o interesse eleitoral do presidente nos votos e na influência política da grande população de exilados cubanos, que reside principalmente na Florida.

Apesar de quase todos os países do mundo manterem hoje relações completas com Cuba, a falta do comércio com os EUA ainda pesa na economia da ilha.

Até hoje as perdas totais que o embargo causou são estimadas entre 732 bilhões de dólares (US Chamber of Commerce) e 1,1 trilhão de dólares (governo cubano).

Não dá para calcular os números dos danos sofridos pelos moradores da ilha.

Contra a Belarus e a Venezuela, a guerra econômica americana ainda está na fase de escaramuças. Não deve ir longe no país do leste europeu. Já o governo Maduro deve esperar por um ataque variado de sanções mais duras.

Esboça-se algo mais sério na Turquia, no cenário iniciado pelas primeiras sanções americanas e as correspondentes retaliações turcas.

Washington protestou, teria sancionado os turcos por razões de segurança nacional, enquanto que a reação turca não passara de uma condenável vingança.

Estavam de brincadeira. A verdade é que, ao atacar o governo Erdogan pela prisão do pastor evangélico Brunson, Trump está de olho no vasto eleitorado de fiéis desse rebanho.

A guerra econômica contra a China ainda não se generalizou.

Já houve troca de sobretaxações de importações entre os dois países. Felizmente, as negociações para se chegar a um acordo parecem ir bem.

Do contrário, as consequências de uma ampla guerra econômica, cujo primeiro passo The Donald já deu, seriam devastadoras, inclusive para os países que não estão na briga.

 

 

 

 

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