Guerra do Afeganistão: o fim se aproxima.

Aleluia! A Guerra do Afeganistão está acabando.

Foram dado passos decisivos para dar fim à mais longa guerra travada pelos EUA, abrangendo quase 18 anos, com a morte de 120 mil civis e soldados afegãos, quase 3 mil militares americanos e cerca de 10 mil da OTAN.

Depois de 1 ano de reuniões, em Doha, os representantes do governo americano e do Talibã chegaram ao esboço de um acordo preliminar de paz.

Zalmay Khalizad, o negociador americano, tuitou: “Nós estamos no limiar de um acordo que reduzirá a violência e abrirá as portas para os afegãos sentarem-se juntos para negociar uma paz honrada e sustentável e um Afeganistão unificado e soberano, que não ameace os EUA, seus aliados e qualquer outra nação (The Guardian, 01-09-2019).”

Segundo participantes das reuniões, os EUA retirarão cinco mil dos seus 14 mil militares instalados no país, durante os próximos cinco meses.

Em contrapartida, o Talibã fechará o país para    al Qaeda e o ISIS-Korasan (grupo de talibãs do paquistaneses) e reduzirá sensivelmente a violência.

Acho impensável supor que americanos e talibãs não tenham já acertado os termos do acordo final, a ser aprovado em reunião posterior, provavelmente em Oslo.

Certamente será  aprovado pelos participantes dessa reunião, que não terão como contestar o que os altos poderes dos EUA e do Talibã já terão decidido.

Embora os dois adversários tenham bons motivos para acabar com a guerra, os dos EUA são mais significativos.

Eles já gastaram um trilhão de dólares e não querem continuar torrando dinheiro numa guerra que nunca deveria ter começado.

Em 2001, o governo Bush ameaçou invadir o Afeganistão caso os talibãs não entregassem Osama bin Laden aos EUA.

Embora eles tivessem se recusado, por temerem um julgamento injusto, topavam entregá-lo ao Egito ou à Turquia, onde seria processado de forma imparcial (The UNZ Review, 31-08-2019).

Para agradar seu povo, enfurecido pelo atentado às Torres Gêmeas, Bush não quis saber de nada e ordenou a invasão.

Há alguns anos atrás, os EUA perceberam que lutavam numa guerra perdida, seria a hora de buscar a paz. A ocasião era adequada pois suas tropas ainda dominavam a maior parte do país.

Agora, o momentum já passou pois o controle do conflito já escapou das mãos de Washington.

Analistas independentes afirmam que a segurança do pais se acha no seu pior momento desde a invasão americana,  que derrubou o regime Talibã em 2002 (Los Angeles Times, 30-08-2019).

No ano passado, as mortes de civis foram duas vezes maiores do que as verificadas na terrível luta contra o domínio russo (1979-1989). Somente em 2018, os EUA lançaram mais bombas no território afegão do que nos anos anteriores.

Hoje, os talibãs controlam 20% dos distritos e disputam o poder nos outros 80%.

E os EUA já gastaram mais dólares na reconstrução do Afeganistão, do que em todo o plano Marshall, na Europa do pós-guerra.

Conseguiram muito pouco.

O regime afegão está longe de ser uma democracia, faltam instituições organizadas e respeitadas. O exército, apesar do intenso treinamento efetuado por instrutores americanos e da OTAN, é ineficiente e pouco confiável. Todo ano, um terço dos seus integrantes tem de ser substituído.

No passado, houve diversas reuniões para se tentar conseguir a paz. Mas, os EUA exigiam que os inimigos entregassem as armas e desistissem de sua luta, enquanto o Talibã garantia que só faria a paz depois de todos os militares americanos abandonarem o país.

O Pentágono contava com a exaustão dos talibãs diante das enormes perdas humanas, que lhes estavam sendo impostas pelas forças americanas. Seriam forçados a aceitarem a paz. Em 2017, esse era a base da da estratégia militar do governo Trump.

Não deu certo. Os talibãs resistiram e, pior aumentaram seu domínio no país.

Agora, tendo a situação se ornado claramente desfavorável os EUA viram-se obrigados a serem flexíveis.

Os talibãs também, embora estejam cedendo bem menos. No acordo preliminar recém-anunciado, os EUA retiram-se de cinco bases, enquanto os talibãs prometem reduzir a violência (o que me parece vago) e livrar-se de milicianos da al Qaeda – estima-se serem menos de 100- e do ISIS-Khorasan, que, na verdade, eles já vêm combatendo.

Foi determinante a diferença entre as motivações dos dois lados. Enquanto os talibãs lutam pela independência de seu país contra forças estrangeiras, os americanos – tanto o povo, quanto os soldados – estão fartos de uma guerra sem fim, por valores discutíveis.                                                                

  Duas pesquisas da Pew Research – junto à população americana, em geral, e aos veteranos de guerra- revelam que para praticamente 60% dos dois grupos a guerra do Afeganistão não valeu à pena (Common Dreams, 11-07-2019).

Nos últimos tempos, The Donald vinha se declarando adepto da retirada americana. Era coerente com sua posição proclamada durante a campanha presidencial. Subito, ele parece estar criando obstáculos a paz que foi negociada em Doha, ao declarar que os EUA manteriam 8 mil e seiscentos soldados no Afeganistão, mesmo depois da conclusão da paz, contrariando a retirada total que os talibãs exigem.

Para mim está claro que, este exército seria uma ameaça aos objetivos do Talibã de tomar o poder, pelo voto ou pela força.

Acredito que o presidente não tenha mudado de posição. Ele estaria apenas procurando acalmar o Pentágono e os falcões que o assessoram, liderados pelo notório John Stockton, conselheiro especial do presidente em segurança nacional..

Para conseguir a paz, ele terá mesmo de aceitar um Afeganistão que poderá vir a ser governado pelos talibãs.

Isso não representaria um risco para a segurança dos EUA. O Talibã é um movimento nacionalista, voltado apenas para a conquista do poder no Afeganistão. Jamais promoveu ações terroristas no exterior.

Os adversários da paz ora negociada dão mais importância a outro argumento. Dizem que, no ensejo de uma possível queda do regime atual em favor dos talibãs, outros movimentos, esses sim terroristas, usarão o território afegão para organizar atentados contra os EUA e/ou treinar grupos de milicianos para agirem no Ocidente.

Como os fatos tem provado, o terrorismo dispensa muito espaço para preparar suas ações. Os agentes dos atentados, como tem acontecido, não precisam atravessar a enorme distância entre o Oriente Médio e os países do Ocidente.

 Basta uma casa ou até mesmo uma sala para os milicianos montarem bombas caseiras, tramarem atropelamentos, ataques a faca, etc.

Graças aos avanços da tecnologia, especialmente à expansão generalizada da internet, fica muito fácil a comunicação entre grupos terroristas situados em diversos países.

Por que usariam o remoto Afeganistão para tramar e executar suas barbaridades quando tudo poderia ser feito na própria terra de Trump, por alguém de lá?

Quanto às milícias jihadistas, que, alguns garantem, iriam se instalar em áreas de um Afeganistão sob o Talibã para treinarem seus militantes, observo que já existem um grande número delas espalhadas pela Ásia e pela África. Muitas lutam contra o regime Assad, ombro a ombro com guerreiros do exército rebelde, com armas fornecidas pelos próprios EUA. Até agora, nenhuma mudou-se para o Afeganistão em uma das muitas áreas dominadas pelos talibãs.  No caso deles conquistarem o poder, não vejo porque aceitariam uma vizinhança incômoda, capaz de provocar ataques devastadores por parte de mísseis lançados pelos americanos.

Também não acho válido recusar a paz por importar na retirada total dos EUA, que resultaria na substituição de um regime amigo por outro do inimigo – os talibãs.

Embora não seja certo que isso fatalmente acontecerá, admito ser provável. E nada bom. Uma sociedade governada pelas regras medievais da sharia, tomadas ao pé da letra, é algo absolutamente indesejável.

No entanto, o acordo final de paz poderá prever o compromisso do regime atual e dos talibãs no respeito à democracia e aos direitos individuais, inclusive das mulheres.

Não juro que seria cumprido estritamente pelo Talibã…

Mas o que existe no Afeganistão não é nenhuma democracia, sequer razoável.

Segundo o  Índice de Percepção da Corrupção, da Transparência Internacional, de 2018,  o   Afeganistão era uma das nações mais corruptas do mundo, ranqueada em 172º lugar entre 180 países. Por sua vez, o Relatório da Felicidade do Mundo coloca o país como o terceiro menos feliz do orbe, atrás apenas da República Centro Africana e do Sudão do Sul.

O Inspetor Especial dos EUA na Reconstrução do Afeganistão relatou que a campanha aérea envolvendo os mais sofisticados equipamentos pouco fez para reduzir o tráfico ilegal de drogas. O Afeganistão continua o recordista mundial no ópio, produzindo duas vezes mais do que em 2001, quando os EUA o invadiram.

Sim, os americanos perderiam possivelmente um aliado, talvez um Afeganistão talibã ficaria ao lado do Irã.

Seria um preço muito alto, mas valeria à pena pagá-lo para os EUA se livrarem de uma guerra que até seu próprio povo rejeita.

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