Fora do Hamas e do Fatah pode haver solução.

Depois que Donald Trump reconheceu Jerusalém como capital de Israel e sede de sua embaixada, parecia que tudo estava perdido para os palestinos.

Uma intervenção americana imparcial fora a última esperança de Abbas para a proclamação da independência da Palestina.

Como líder do Fatah e da Autoridade Palestina, ele fez as maiores concessões aos EUA e Israel. Chegou a pedir que o Conselho de Direitos Humanos da ONU não aprovasse  uma condenação a Israel. Tem agido como um verdadeiro colaboracionista na parte da Cisjordânia que administra, perseguindo e prendendo gente do Hamas e fazendo abortar planos de grupos insurgentes contra Israel. Justificava-se dizendo que assim mostraria a Telaviv ser capaz de proteger a segurança israelense, num futuro Estado palestino. Mas, Israel ignorou essa ideia, exigindo sempre que suas tropas permanecessem no interior nas negociações de um futuro Estado Palestino.

Nos 13 anos de Abbas e do Fatah, nada foi conseguido de concreto.

A Palestina continua ocupada pelo exército de Israel, Gaza continua sob bloqueio e os assentamentos israelenses se expandem pelo território palestino.

Por sua vez, o radicalismo do Hamas, com o sonho impossível de vencer Israel pela resistência armada, ofereceu desculpas para Israel destruir Gaza.

Os dois principais movimentos revolucionários palestinos também falharam ao não se unirem para, assim fortalecidos, poderem promover a causa palestina com mais eficiência.

Foram cinco tentativas de reconciliação entre eles, todas lamentavelmente frustradas.

Pesaram mais o egoísmo e as ambições dos chefes palestinos do que o objetivo de libertar seu povo.

No entanto, talvez haja esperanças de soluções fora das concessões improdutivas do Fatah e dos mísseis do Hamas, derrubados pelo sistema anti-míssil israelense.

A resistência passiva começa a tomar maior corpo na paisagem política da região.

Algo muito próximo a essa ideia apareceu entre 1987 e 1993, na primeira Intifada.

Desesperado pela opressão do governo de ocupação, o povo palestino reagiu lançando paus e pedras contra os militares. Tratava-se de uma resistência popular não armada, sem líderes, nem organização, que as violências do governo geraram.

Com paus e pedras não dava para competir com o armamento de guerra do exército de Israel. Mesmo assim, a primeira Intifada durou seis anos, apesar da dura repressão das forças de segurança.

Teve êxito pois chamou a atenção internacional para as injustiças que o povo palestino sofria. A força da opinião pública chocada com a situação palestina produziu o Acordo de Oslo, em 1993.

Nele se elaborou, com apoio até dos EUA e de Israel, um plano para, gradativamente, se chegar à fundação de um Estado Palestino.

Cedo se viu que as generosas propostas de Oslo eram, na prática, desrespeitadas sistematicamente por Israel.

Os movimentos palestinos responderam com atos de terrorismo. Respondidos com brutalidade por Israel.

Em 2002, nesse cenário de conflitos, foi fundada a Iniciativa Nacional Palestina (INP), que visa chegar à independência através da resistência passiva.

Seria uma terceira força, opondo-se à polarização entre o Fatah e o Hamas. Sem concessões em pontos básicos, sem o uso de violência, mas reconhecendo o direito palestino de lutar contra a ocupação.

O INP participou das eleições parlamentares palestinas de 2005 onde, na segunda fase, conquistou a maioria dos votos em 6 cidades, com um total de 10% do total geral.

Na terceira fase, ganhou o controle de vários conselhos.

Nesse mesmo ano de 2005, o INP criou o BDS (boicote, desinvestimento e sanções), que propõe o boicote de ações econômicas, artísticas, esportivas, culturais e científicas com Israel, para pressionar pelo fim da ocupação e dos assentamentos.

Embora, por influência de Israel, sofra duras restrições legais nos EUA e na Europa, o BDS vem crescendo continuamente. Centenas de empresas, universidades, sindicatos, igrejas, artistas, intelectuais, acadêmicos, uniões estudantis e até países já aderiram.

Propagada pelo INP, a resistência passiva alcançou muitos movimentos e organizações pró-Palestina.

Em 2010, uma dessas organizações fretou a Flotilha da Liberdade, para levar suprimentos ao povo de Gaza, e tentar romper o cerco marítimo israelense do estreito.

A intervenção de Israel foi arrasadora.

Comandos da sua marinha assaltaram o Mav Marmara, o maior barco da flotilha, matando a tiros 9 civis.

Esse ataque pirata deixou o mundo indignado.

Condenações choveram de toda a parte: da ONU, de países de todos os continentes, de estadistas, de organizações de direitos humanos e mesmo dos EUA. A secretária de Estado, Hillary Clinton, notória aliada de Israel, declarou que “a situação de Gaza é insustentável e inaceitável.” A Turquia, pátria de uma das vítimas, suspendeu suas relações com Israel, exigindo desculpas, que Netanyahu, na ocasião, não deu. A Comissão de Direitos Humanos da ONU iniciou uma investigação.

Por seu lado, o INP iniciou uma série de manifestações de protesto, em toda a Palestina.

Num segundo momento, em 2013 e 2014, passou para uma etapa mais avançada. Muitas centenas de voluntários entraram em áreas de propriedade privada de palestinos desapropriadas por Israel ou em cidades destruídas pelo exército- onde o governo de Telaviv projetava instalar futuros assentamentos.

Ali começaram a construir as fundações de uma sociedade, baseada na parceria, na ética e na igualdade.

Ergueram habitações e escolas, iniciaram plantações.

Os confrontos com o exército de Israel foram inevitáveis.

Os palestinos resistiram sem violências, mas a violação dos seus direitos humanos pelos militares foi sempre dura. Dezenas de voluntários saíram feridos ou foram deportados.

Esses eventos se repetiram em Bab al-Shams, Ahfad Younes, al-Manateer e Ein Hijleh.

Foram marcos na história da resistência passiva e da determinação dos palestinos em buscar o controle dos seus próprios destinos.

Divulgados pela imprensa, pelo YouTube e outras redes sociais, expuseram com impacto invulgar a ilegalidade dos assentamentos e a brutalidade das forças de segurança israelenses (Vice, 14-1-2013).

Em julho de 2017, Netanyahu decretou novas restrições para se entrar na mesquita de al-Aqsa, Jerusalém – o terceiro local mais sagrado do Islã. Instalou detectores de metal, aos quais os fiéis tinham de ser submetidos.

Indignados, dezenas de palestinos passaram a rezar nos espaços em volta da mesquita.

Logo, foram centenas. Não passou muito tempo e já eram milhares, numa resistência passiva que irritou Telaviv.

As forças de segurança intervieram de forma arbitrária, deixando cerca de 50 feridos.

Mas, os palestinos não se retiraram.

Temendo que o local se tornasse uma segunda praça Tahir (onde massas de egípcios iniciaram a revolução que derrubou o tirano Mubarak), o primeiro-ministro Netanyahu mandou retirar os detectores da al Aqsa.

Depois desta vitória, a resistência pacífica partiu para uma ação de maior vulto: a Grande Marcha de Returno.

No 70º aniversário do Nakba (expulsão dos palestinos do país em 1948 e 1967), o povo de Gaza – 70% integrado por expulsos ou familiares deles- lançou uma grande manifestação, próxima à cerca que separa Gaza de Israel.

Os protestos duraram seis semanas, ininterruptas.

Pediam a volta dos refugiados e o alívio do bloqueio de Gaza, que submete seu povo a cruéis privações há mais de 10 anos.

O exército de Telaviv compareceu com aparato bélico: tanques de guerra, metralhadoras e 100 snipers (atiradores). Esses especialistas tinham ordens de alvejar quem chegasse perto da cerca ou se destacasse na agitação dos manifestantes.

Foi o que eles fizeram, matando 115 civis e ferindo um número indeterminado entre 2.100 e 5.000. Crianças, velhos e mulheres não foram poupados. Nem mesmo médicos que atendiam aos muitos feridos.

Somente no dia da inauguração da embaixada americana em Jerusalém foram mortos mais de 50 palestinos.

As cenas mostradas através do YouTube e as informações da imprensa e das redes sociais horrorizaram o planeta.

Israel acuado, alegou que tudo fora uma conspiração do Hamas para que seus militantes penetrassem em Israel e realizassem atentados. Teriam mesmo usado armas de fogo contra os militares.

O mantra “Israel tem o direito de se defende” repetiu-se mais uma vez, com credibilidade irrisória. Além dos EUA, não me lembro de ninguém que aceitasse essa versão.

Entrevistas de vários líderes populares, não vinculados a partidos, contaram que ação fora planejada por gente como eles. O Hamas só aderiu posteriormente, quando a marcha já estava em curso.

Quanto a tiros, ninguém sabe, ninguém viu. Pedras foram as únicas armas dos manifestantes, assim mesmo lançadas somente por alguns grupos de jovens.

A imagem de Israel, já muito arranhada, sofreu danos incalculáveis em toda a parte.

Caiu sobre o país a pecha de violação de lei internacional, por usar balas reais contra manifestantes pacíficos, algo que somente regimes ditatoriais costumam fazer.

Para não deixar a peteca cair, no início deste junho,  nova Flotilha da Liberdade partiu com destino a Gaza, fretada por um grupo de entidades. Desta vez, em lugar de suprimentos, que podem ser perecíveis caso tomados pelos israelenses, os habitantes do estreito receberão um barco de pesca norueguês reformado – a própria embarcação, onde viajam os voluntários da flotilha.

Talvez preocupados com as consequências dos seus ataques aos membros indefesos da Marcha de Retorno, os chefões de Telaviv resolvam suavizar a péssima imagem adquirida, dando sinal verde para o Awa.

Eu duvido, esses arrogantes senhores não admitem que a comunidade internacional ouse sancionar seus atos. Ainda mais com Trump vetando.

No máximo poderão orientar para que, ao abordarem o Awa, seus soldados, procurem não matar ninguém. Sucede que nada os poderá impedir de agir como o habitual, com diferentes tipos de violência, trazendo mais danos à imagem de Israel no mundo.

Espera-se que os tripulantes da Flotilha da Liberdade resistam de forma somente passiva. Como fizeram o Hama, o Fatah e a Jihad Islâmica na Marcha de Retorno.

Postura que deveriam seguir em todas as suas ações em defesa dos palestinos. Substituindo a agressividade pela resistência passiva, invalidarão o grande argumento de Israel para justificar a ocupação e outras violências, o sovado “Israel tem o direito de se defender.”

Defender-se do que, se a resistência dos grupos pró-Palestina ficou pacífica?

Claro, será necessário que por fim aos mísseis lançados de Gaza, aos atentados, suicidas ou não, e ataques a faca.

Motivos para partir para o pau não irão faltar- a inteligência de Israel não é boba, já deve estar planejando provocações para que os palestinos reajam à altura, o que desmoralizaria a bandeira da reforma pacífica.

Os grupos rebeldes e os cidadãos d modo geal devem ser conscientizados de que é crucial evitar a qualquer preço ações violentas contra Israel, ainda que justificadas.

Aposto que, através das redes sociais, provavelmente os cidadãos israelenses também serão atingidos. Os mais sensíveis acabarão aceitando a independência palestina. Os demais, pelo menos, verão os árabes como seres humanos, que podem ter suas razões para desejarem a liberdade.

Além do compromisso com a resistência pacífica, é importante que os movimentos palestinos sigam denunciando as práticas ilegais e desumanas do governo.

A aceitação da Palestina como membro completo da ONU será certamente vetada no Conselho de Segurança pelos EUA. Mas, o voto favorável, esperado da maioria do Conselho, deve fortalecer a causa palestina no exterior.

Levará certamente um bom tempo, mas a adoção da resistência passiva pelos palestinos acabará convencendo a comunidade internacional a agir com energia. Ao invés de se limitar a simples recomendações e críticas.

Words, words, words , sozinhas não resolvem nada.

 

 

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