A Europa se defende dos EUA.

Ao abandonar o Acordo Nuclear do Irã, Donald Trump prometeu não só reaplicar as sanções suspensas, como também criar novas, ainda mais destrutivas.

Deixou claro que iria penalizar as empresas europeias que ousassem manter laços de negócios com o Irã.

Dando certo, Teerã ficaria totalmente isolada e acabaria mergulhando numa crise insuportável.

Claro, as empresas da Europa, que já aplicaram pesados capitais no Irã e planejam investir muito mais, também sairiam perdendo.

É o caso principalmente da França, da Alemanha e da Itália.

O Reino Unido fiara para trás mas preparava-se para aproveitar as inúmeras oportunidades de um mercado de 80 milhões de habitantes e riquíssimas jazidas minerais, especialmente petróleo, cujas reservas são as terceiras maiores do mundo.

O usufruto deste maná pelo capital mal começou e o comércio entre a Europa e o Irã já cresceu de 9,2 bilhões de dólares, em 2015, para 25 bilhões e dólares, no ano passado.

Só não foi maior pelo receio de bancos e investidores de sofrerem as sanções trombeteadas largamente por The Donald.

Se ele pensava que com alguns rugidos os europeus esqueceriam novos empreendimentos e se retirariam dos já existentes, com os olhos marejados de lágrimas pelos lucros perdidos, enganou-se.

A União Europeia não vai entregar os pontos facilmente.

Ela não seguirá (como era costume) a decisão do presidente americano. França, Reino Unido e Alemanha continuarão no Acordo Nuclear. Fazendo de tudo para cumprir o prometido empuxo econômico para acelerar o desenvolvimento iraniano.

Esses três países emitiram comunicados, advertindo os EUA de que não deveriam criar obstáculos para investimentos do Ocidente no Irã.

O embaixador americano na Alemanha, Richard Greenfell ignorou essa advertência, como se partisse de algumas republiquetas centro-americanas dos tempos de Theodore Roosevelt (não confundir com FranKlin, seu sobrinho).

Preveniu as empresas germânicas que seria melhor para elas eliminarem qualquer relação de negócios que tivessem com o Irã. Até lhes explicou porque: os EUA queriam destruir a economia do Irã, o que iria atingir também todas as empresas com negócios no país.

Não deixa de ser uma intervenção estrangeira indevida nos negócios de Berlin. Eu diria, um desrespeito à soberania do país de Beethoven.

Diante do destempero de Geenfell, a ministra Andrea Nahles preferiu limitar-se à ironia: “Não cabe a mim ensinar o embaixador dos EUA a ser diplomático mas parece que ele precisa de um pouco de tutela.”

Quase todos os partidos alemães também criticaram, alguns mais pesadamente.

Coube a Federica Mogherini, chefe da política externa da União Europeia, informar a reação das nações do Velho Continente diante da decisão de Trump: “ A União Europeia está começando a se preparar para o caso dos interesses europeus  precisarem de proteção de decisões tomadas em outros lugares.”

Para muitos especialistas, os europeus não teriam chance de conseguir de manter seus interesses no Irã, diante de um EUA disposto a usar seus vastos recursos econômicos e políticos para impedir qualquer iniciativa que favoreça a economia iraniana e a proteja da crise a que The Donald a condenou.

Para, o Middle East Eye (9 de maio) há alternativas para os inconformados europeus: uma estratégia de denúncias (dos erros da retirada americana), em paralelo com negociações. Ou mesmo agressiva: a Europa deveria prevenir que poderia retaliar levando o caso à Organização Mundial do Comércio e até adotar tarifas para compensar os danos sofridos pelas sanções dos EUA. O objetivo seria persuadir os EUA de que fazendo concessões e expandindo o espaço para exceções seria menos caro do que se engajar num conflito transatlântico.

Patrick Pouyanné, diretor executivo da Total, que já atua no Irã, num projeto de 3,8 bilhões de dólares, o South Pars, explorando o maior campo de gás do mundo, vem com uma proposta corajosa: o Estatuto do Bloqueio (The Guardian, 9 de maio). Ele tem 3,8 bilhões de razões para ser ousado…

Em 1996, quando o presidente Clinton quis penalizar empresas estrangeiras operando em Cuba, a Europa ameaçou impor o Estatuto do Bloqueio, que proibia qualquer nação desse continente de aceitar as sanções americanas e não reconhecia qualquer decisão judiciária que impusesse penalidades americanas.

O bloqueio quase não foi aplicado porque Clinton acabou desistindo. Antes disso, o governo austríaco forçou a reabertura das contas de 100 cubanos fechadas por um banco local depois de vendido a uma empresa americana.

De qualquer maneira, muitos governos europeus o consideravam complicado pois suas regras eram vagas e difíceis de serem aplicadas em certos casos. Serviram mais para pressionar o então presidente americano a recuar.

No entanto, um diplomata europeu nível sênior está otimista quanto à eficácia atual dessa medida: ”O Estatuto do Bloqueio é uma ds principais opções; ele está sendo modernizado para ficar pronto para ser oficializado.”

Sir Simon Gass, representante chave do Reino Unido no Acordo Nuclear, em 2015, em um paper, publicado na Rede de Liderança Europeia, fala em estender linhas de crédito em moedas que não o dólar e garantias de crédito para preservar o acordo o quanto for possível.

A União Europeia, aliá, já tem tomado medidas para fazer os euros circularem no Irã, coordenando e estimulando garantias de créditos para exportação pelos governos europeus.

Essa ideia se espalha. A Itália assinou uma linha de crédito com o Irã para financiar investimentos em valor superior a 5 bilhões de euros para projetos tocados conjuntamente por empresas iranianas e italianas. A França planeja fazer o mesmo.

Quando deixou a Europa na mão ao retirar os EUA do Acordo de Paris, Trump não recebeu mais do que simples protestos dos líderes do Velho Continente.

Só Ângela Merkel proclamou que os europeus deviam buscar seus caminhos. Mas, o tempo passou e a proposta não se viabilizou.

Diante da proximidade da data na qual Trump prometia violar o Acordo Nuclear, Macron veio a Washington, esbanjando carinhos, zumbaias e ofertas lesivas ao Irã para convencer The Donald a permanecer no Acordo.

Logo a seguir, a própria Merkel, que no affaire de Paris, dera provas de independência, também o procurou, suplicante.

Trump convenceu-se que os europeus, podiam ser sofisticados e bem falantes, mas no fim arregravam.

Desdenhou os apelos de todos, certo de que sem ele, o Acordo Nuclear com o Irã estaria morto.

Parece que se enganou.

Este último dos vários acordos internacionais rompidos por Trump a dano da Europa, passou da conta.

Em entrevista, Bruno Le Maire, ministro francês das Finanças, disse à Rádio Cultura do seu país: “O alcance internacional das sanções americanas torna os EUA a polícia do planeta e isto não é aceitável.”

Especialmente por povos orgulhosos de suas histórias e valores.

No entanto, na verdadeira batalha que se desenha, as palavras terão muita força, mas agora elas devem abrir passagem para ações igualmente fortes.

Lembro que Tio Sam costuma por na linha protegidos rebeldes.

 

 

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