Europa pode retirar sanções anti-Rússia. Se os EUA deixarem.

Ex-candidato a presidente dos EUA (perdeu para Obama), o senador John McCain teve momentos de rara franqueza ao falar sobre as sanções anti-Rússia, no affair Ucrânia.

Em entrevista à agência Sputnik, ele declarou :”Venho ouvindo há meses que há uma enorme pressão em uma porção de países (europeus), particularmente na Alemanha, para se levantar as sanções.”

Mas, McCain afirmou, isso vai depender dos EUA.

Estranho.

Pelo que se sabe, os países europeus são soberanos, portanto,  nenhum país estrangeiro pode resolver o que eles devem fazer.

Ou será que pode?

Em 2014, durante os conflitos da Ucrânia, o governo americano propôs sanções para prejudicar a economia russa e assim obrigar Putin a se comportar.

O comércio do Krenlin com a Europa e os EUA ficaria reduzido ao mínimo.

Os EUA perderiam negócios mas isso não faria Obama ter insônia pois o comércio do seu país com a Rússia é pouco significativo. Não chega a 25 bilhões de dólares anuais.

Já para a Europa seria diferente.

Em 2012, os lucros do comércio com a Rússia colocaram 370 bilhões de dólares nas economias européias.

A pesada retração que as sanções prometiam causar iria prejudicar os imensos interesses de empresas da Europa Unida atuando em Moscou. Como a British Petroleum, a Shell e a ENI (italiana) que tem pesados investimentos no país.

6.200 empresas alemãs operam na Rússia. Anton Boerner, chefe da BGA, declarou; ‘Para elas, as sanções economias seriam uma catástrofe”.

Por estes e outros exemplos, o Velho Mundo, a princípio, contestou a idéia de sancionar Moscou. Ninguém queria interromper uma relação comercial que beneficiava a todos.

Obama foi implacável.

Alardeando o perigo da expansão da Rússia, liderada pelo despótico Putin, que ameaçava a Europa, ele acabou vencendo.

A União Européia topou aplicar sanções contra a Rússia.

Moscou revidou banindo importações de fruta, queijos e outros alimentos,o que deixou os fazendeiros europeus falando sozinhos.

Comentando as discussões que precederam o anúncio das sanções, em outubro de 2014, o vice-presidente Biden foi muito claro : “È verdade que eles (os europeus) não queriam fazer aquilo (as sanções). Foi a liderança americana e o presidente Obama, insistindo e quase tendo de constranger a Europa…”

As sanções impuseram duras perdas à economia russa.

Mas os países da Europa também saíram perdendo

Agora, eles querem revogar as sanções.

“Depende de Obama”, disse o senador McCain.

O chato é que provavelmente ele não está mentindo.

Parece que ainda vai demorar para os europeus entenderem que o Velho Mundo é uma potência com interesses eventualmente opostos aos dos EUA. E força suficiente para fazer o que for convenente para seu povo e não para o establishment americano.

As sanções deveriam terminar no verão deste ano mas a cruzada contra o demoníaco Putin tem tantos adeptos na política americana que já se ouve falar em novas sanções.

A Europa está pressionando em sentido contrário.

Em janeiro, Emanuel Macron, ministro da Economia da França declarou que espera o fim das sanções.

É o que deseja Rainer Seele, presidente da Câmara de Comércio russo- francesa. Ele informou que 80% dos negócios alemães sofreram o impacto das sanções.

Por sua vez, o vice-chanceler da Áustria, Reinhold Mitterlehner revelou que mais de mil empresas do seu país negociam com a Rússia, sendo que 500 operam nesse país. Todas sofreram com a punição imposta ao Krenlim.

Os próprios EUA admitem mudar de posição, embora o presidente Poroschenko da Ucrânia não veja a idéia com bons olhos.

Em Davos, o secretário de Estado, John Kerry afirmou ser possível remover as sanções nos próximos meses.

De fato, os motivos da punição estão desaparecendo.

Com a colaboração da Rússia, foi assinado o acordo Minsk 2, no qual Donbass (a região rebelde) e a Ucrânia aceitam uma descentralização do poder no país, que seria quase uma autonomia da província rebelde.

Putin já retirou quase todos os soldados russos e armamentos pesados do país.

Só não se chegou a um acordo de paz definitivo porque continua a haver ataques esporádicos, que cada parte atribui à outra.

Seja como for, os ventos agora sopram em favor de Putin.

Ele não só foi um os principais artífices de Minsk 2, como também tem se comportado na questão da Síria de modo diferente do voraz e impiedoso projeto de conquistador descrito pela política americana.

Também pegou bem a reação firme mas moderada do Kremlin ante a derrubada do seu avião pelos turcos por ter entrado 17 segundos no espaço aéreo destes.

Já pensou se acontecesse com os EUA?

Foi bem vista na Europa, a prontidão de Putin em atender a Hollande, depois do atentado de Paris, para participar de uma grande frente mundial contra o Estado Islâmico.

Foi decisiva sua atuação para que se conseguisse iniciar a conferência de Genebra 2 pela paz na Síria.

Petrov, o ministro das Relações Exteriores, fez diversas concessões importantes;

  • Depois de vetar o convite ao grupo rebelde Jaish al-Islam por ser terrorista, acabou cedendo após insistência da Arábia Saudita e dos EUA;
  • Defendeu a participação dos curdos- aliados dos EUA- por ser um dos mais valorosos guerreiros contra os ultra-fanáticos, quem mais vitórias conseguiu sobre eles.

A Turquia vetou e o EUA não disse nada para não contrariar esse aliado.

Possivelmente uma questão que pode causar ruído nessa aproximação Rússia-Ocidente é a recusa dos russos em interromper seus bombardeios das posições rebeldes sírias.

Eles tem suas razões. Não foi assinado nenhum cessar fogo.

Há ainda outro fato a considerar.

Lembro que durante as negociações de paz entre a Colômbia e as guerrilhas das FARCS, o governo colombiano não parou de atacar as forças do adversário.

Diante de protestos, alegou que, se parasse os ataques, os militantes das FARCS aproveitariam para reforçar suas defesas.

Os russos tem o mesmo raciocínio. Sem o apoio de seus aviões, as forças de Assad não teriam chance de continuar sua ofensiva em Alepo e no norte. E assim os rebeldes, graças à parada da aviação russa, poderiam trazer mais armamentos e soldados para essas áreas, sem serem hostilizados.

Reiniciadas as operações, o exército de Damasco teria de enfrentar um rival fortalecido

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