EUA na Coreia: agora a fome, depois, a guerra.

Às 8 horas e cinco minutos do dia 14 de Agosto, o govenador do estado do Havai lançou um alerta de emergência: mísseis balísticos tinham sido disparados contra a região.

Talvez para não deixar dúvidas, a mensagem governamental acrescentou: “não se trata de um exercício”.

Às 8 horas e 43 minutos o governador pediu desculpas pelo seu alarmismo.

Não havia míssil algum voando contra os havaianos, apenas um funcionário apertara o botão errado.

Os havaianos puderam respirar aliviados depois de 38 minutos aterradores, procurando abrigos, sem saber como escapar de uma morte terrível, pois os mísseis poderiam ser nucleares.

Fora um absurdo monumental. Não aconteceu em Botswana, El Salvador ou em outro desses países que o presidente Trump chama de “merdas”.

Como, na nação líder do planeta, um simples erro de um único funcionário pode espalhar o pânico por toda a população?

Só mesmo num país de…Melhor deixar pra lá.

O problema é que, com um sistema de segurança tão precário, não dá para descartar a possibilidade de um erro provocar algo mais do que um pavoroso susto.

Uma guerra com a Coreia do Norte, por exemplo.

Acredito que, agora, o governo americano vai implementar novos procedimentos que tornem bem mais difícil a repetição de erros, talvez fatais.

Difícil, mas não impossível.

Afinal, The Donald tem um botão vermelho (como se sabe, maior do que o de Kim Jong un) que pode lançar na Coreia do Norte o “fogo e fúria” das armas nucleares americanas.

Acho que, no interesse da segurança mundial, esse botão deveria ser rapidamente removido da mesa presidencial.

Como isso não vai acontecer, a representante Tutsi Gabbard (democrata) aconselha:  ”O falso alarme da manhã no Havaí exige que os EUA procurem soluções diplomáticas imediatamente. Afinal, ninguém garante que um novo erro não se repetirá, o que poderia provocar acidentalmente uma guerra com os norte coreanos, inclusive de dimensão nuclear.”

Gabbard insiste que o governo Trump teria o dever de se reunir para negociações com o governo de Piongiang,  sem exigir qualquer pré-condição. Deixar uma ameaça desse porte sem solução seria uma grave “falha de liderança.”

Á primeira vista, parecia que Trump e os seus ficaram sensibilizados pelos riscos de uma guerra nuclear estourar por engano.

Pelo menos, eles saudaram a aproximação que começou a se esboçar entre sul-coreanos e norte-coreanos. Coisa que até agora The Donald considerava perda de tempo.

Estava programado que autoridades das duas Coreias deveriam apenas discutir uma pequena participação do regime do Norte nas Olimpíadas de Inverno, a realizar-se entre 7 e 25 de fevereiro.

Depois da primeira reunião, as perspectivas se ampliaram.

Foi reestebalecido um canal de comunicação direto entre Km e Moon, o presidente sul-coreano. A representação da Coreia do Norte será maior do que o previsto. As duas delegações irão desfilar juntas sob a bandeira da Coreia unificada. Planeja-se formar um time de hóquei com jogadoras das duas nações. Um famoso grupo feminino de música pop (as moças são lindas) e uma banda de militares norte-coreanos se apresentarão no sul da península durante os jogos. E novas reuniões estão se processando entre altas autoridades dos dois lados da Coreia.

As esperanças de negociações de paz cresceram.

Desaparecendo a animosidade entre as duas Coreias, com o beneplácito da Casa Branca, dava-se um primeiro passo para se fugir dos mísseis balísticos.

Justamente agora, quando tudo parecia caminhar bem, os EUA resolveram realizar treinamentos, com o objetivo de preparar suas tropas para uma rápida mobilização, tendo em vista uma eventual guerra conta o regime de Piongiang.

Os jornais dos EUA publicaram um intenso calendário desse tipo de operações.

Em Fort Bragg, grande número de helicópteros simulando movimentação de tropas por entre disparos de artilharia com munição real. No estado de Nevada, treino de invasão, sob cobertura da noite. Diversas outras operações planejadas em outros locais, simulando a mobilização rápida e em grande escala de soldados transportados para desembarques no exterior.

E o mais preocupante: as forças especiais dos EUA projetam começar a se estabelecerem na Coreia do Sul, no início das Olimpíadas de Inverno, dando margem a especulações de que Trump pretenderia lançar um ataque de surpresa durante os Jogos.

Foram as próprias forças armadas dos EUA que forneceram todas estas informações (excluindo as suspeitas de ataques de surpresa, levantadas por especialistas). O que leva a supor que se trataria de mais uma forma para intimidar os norte-coreanos. Fazê-los pensar duas ou mais vezes antes de testar seu novo míssil, que dizem capaz de atingir até a Estátua da Liberdade.

Se fossem em frente, os EUA estariam agora prontos para retaliar na hora.

Há quem não veja sinais perigosos nesse objetivo.

As simulações americanas poderiam ser uma mera aplicação do antiquíssimo provérbio latino, “Quem quer paz, prepara-se para a guerra (si vis pacem para bellum). Se bem que, também quem quer guerra a prepara para ela…

A explicação dos chefes militares de Washington é de que, embora não se cogite de invasão, é necessário estar pronto para tudo. Além disso, as ideias mudam. No caso de optar pela briga, os EUA precisariam atacar rápido, antes dos norte-coreanos se anteciparem a eles.

O que, aliás, bem que poderia acontecer. Não se esqueça de que o ditador Kim Jong un também tem um botão vermelho, perigosamente perto dele. De repente, ele pode acioná-lo, por razões que possivelmente Sigmund Freud explicaria. Afinal, Kim não parece ser mais equilibrado do que Trump.

Os pessimistas não acreditam. Na verdade, todos estes treinamentos específicos estão sendo realizados para garantir ataques rápidos e fulminantes das forças americanas.

Para o republicano Mark Thornberry, presidente da Comissão de Serviços Militares, da Câmera de Representantes, estaria se considerando muito seriamente a ideia de lançar a “há tanto tempo ameaçada opção militar”, seja um ataque geral, seja uma operação tática contra alvos nucleares limitados.

De fato, é muito suspeito que, depois de um ano de ameaças devastadoras entre The Donald e Kim Jung-un, só agora os EUA resolvam preparar-se para iniciar uma guerra.

Com isso, as possibilidades uma reunião de paz entre as partes em conflito, que as conversações Coreia do Norte/Coreia do Sul podem propiciar, são inconvenientes face a estratégia do governo Trump.

Foi o que foi demonstrado na reunião de Vancouver, Canadá para discutir a questão coreana.

Em primeiro lugar porque a Rússia e a China, que defendem  negociações com a Coreia do Norte, não foram convidados. Tillerson, o secretário de Estado, deixou claro que os EUA só topam discutir um acordo com o inimigo, se Piongiang renunciar a seu programa balístico nuclear.

Os norte-coreanos jamais aceitarão tal pré-condição. Seria absurdo começar uma reunião atendendo a uma proposta cuja discussão seria objetivo da própria reunião.

Em Vancouver, o governo americano reuniu 20 países para desmentir as ilusões criadas pelas trocas de afagos entre as duas Coreias e a reafirmar a solução de sanções defendida por Washington.

Conforme disse o secretário de Estado, Rex Tillerson,“Precisamos incrementar os custos do comportamento do regime até um momento em que a Coreia do Norte disponha-se a sentar-se à mesa para negociações críveis (Reuters, 161-2018).” Em outras palavras, vamos impor mais sanções até que a fome de todo o povo force o regime comunista a pedir água.

Taro Kono, ministro do Exterior do Japão, apoiou com entusiasmo. Disse que o mundo não deveria ser ingenuo, acreditando na “ofensiva de charme” da Coreia do Norte ao se engajar em conversações com a Coreia do Sul, usando os Jogos de Inverno como pretexto.

E foi ainda mais longe: ”Não está na hora de premiar a Coreia do Norte, o fato dela estar engajada em diálogos poderia ser interpretada como prova de que as sanções estão funcionando.”

Lembro que o governo que Kono integra é o mesmo que não assinou manifesto mundial pela redução dos armamentos nucleares, causando escândalo no Japão, onde os morticínios de Hiroshima e Nagazki não foram esquecidos.

Tillerson também detonou a reaproximação Seul/Piongiang. Advertiu que não se deve permitir que a Coreia do Norte “introduza uma cunha entre os aliados (os países contrários à nuclearização norte-coreana)”. Não percebeu que ele já estava fazendo isso ao barrar a China e a Rússia do encontro em Vancouver.

Terminou afirmando a rejeição do governo Trump às propostas de mediação da Rússia e da China, que propõem negociações, antecedidas por congelamento dos exercícios militares americanos e do programa de armas nucleares norte-coreanos.

A estratégia americana ficou bem clara: aumentar as sanções até que a miséria golpeie o povo norte-coreano de um modo tão duro que ameace a sobrevivência do governo, obrigando Kim Jong-un a entregar os pontos.

Caso isso demore demais, os EUA se preparam para estarem prontos para lançarem de imediato uma invasão em regra ou ações pontuais contra centros de lançamentos de mísseis

Um teste com misseis balísticos capazes de atingir os EUA com segurança pode apressar as coisas. Trump e seus generais já estão com o dedo no gatilho para disparar suas armas devastadoras logo em seguida à façanha dos inimigos.

Não excluo que a extensão dos sofrimentos do povo norte-coreano, consequência das sanções, comova o mundo e até o povo americano. Trump sabe que isso não convém em ano de eleições parlamentares, com chances dos recuperarem a maioria na Casa dos Representantes.

De qualquer modo, a reunião de Vancouver foi promovida para deixar bem claro o caminho que os americanos querem seguir: agora, sanções cada vez mais forte; se fracassarem, guerra. A troca de afagos entre as duas Coreias estão fora de discussão como manobra diversionistas contra a estratégia de confrontação que Trump e seus generais consideram única.

A honra nacional e as ambições de reeleição de Trump exigem que os EUA saiam da crise, aniquilando a Coreia do Norte ou forçando-a a se submeter a seu diktat

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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