A estratégia da fome.

Vencer um inimigo pela fome, fechando todos os caminhos para impedi-lo de obter do exterior os alimentos necessários e o governo poder funcionar foi uma estratégia muito usada no passado. Na Idade Média, era assim que a maioria das cidades amuralhadas eram vencidas pelas forças inimigas.

Os estadistas modernos voltaram a usá-la.

A Estratégia da Fome tem a vantagem de poupar muitas vidas de soldados dos exércitos invasores, além de tanques, canhões, lança-mísseis e outros equipamentos usados nas guerras convencionais.

É o que a Arábia Saudita está fazendo.

Em vez de invadir o Iêmen, que seria vigorosamente defendido pelos houthis, causando pesadas perdas nos exércitos do rei, seus líderes optaram por uma estratégia de fome.

Aviões sauditas já bombardearam o território iemenita milhares de vezes, destruindo todas as escassas fontes locais de produção de alimentos, além da infraestrutura de transportes, armazenamentos, aeroportos e portos. E ainda aperfeiçoou a estratégia: os ataques miram também redes de água, de energia elétrica, hospitais e centros de saúde, causando a disseminação das epidemias de cólera e difteria.

O resultado é que 4/5  dos 28 milhões de habitantes, inclusive 11 milhões de crianças, necessitem de ajuda humanitária para sobreviver (Libertarian Institute, 13-12-2017), no que Marck Loocock ,enviado da ONU, chama “a pior crise humanitária do mundo”.

Apesar desta estratégia ainda não ter dado 100% certo, os houthis resistem em quase três anos e meio de guerra, os sauditas estão otimistas: perderam um ou outro soldado, tendo já matado 10 mil cidadãos das áreas dominadas pelo inimigo.

Os houthis por sua vez contam apenas com ajuda da ONU, da Cruz Vermelha, dos Médicos Sem Fronteiras e de outras entidades humanitárias. Cada vez mais precária, de um lado, devido aos efeitos dos bombardeios e do bloqueio naval, de outro ao aumento constante das pessoas em busca de alimentos e assistência médica.

Os outros países, de um modo geral, limitam-se a lamentar, condenar, protestar, aconselhar…métodos pouco efetivos. O governo de Riad acusa o Irã de fornecer mísseis a seus inimigos, sem, porém, apresentarem provas tangíveis.

Impossível que a ONU intervenha, exigindo que a Arábia Saudita abrande sua fúria e permita que os houthis importem alimentos, gasolina e medicamentos de que  seu povo necessita dolorosamente. Os EUA vetam – o rei Salman e seu príncipe herdeiro são amigos fraternais de Trump, graças principalmente às compras bilionárias de armamentos americanos que eles vem fazendo.

O conflito com a Coreia do Norte é outro bom exemplo da eficiência da estratégia da fome.

Enquanto Trump, bramia ameaças como um valentão de botequim, a diplomacia americana atuava convencendo o mundo do perigo da nuclearização norte-coreana.

Na verdade, o ditador Kim Dong un, fora os EUA, não ameaçava uma única nação. Mas, como costuma acontecer, os EUA conseguiram que o Ocidente aceitasse como seu o problema que era só deles.

Foram aprovadas quase unanimemente na ONU todas as sanções que visavam esvaziar totalmente os pratos de comida das famílias norte-coreanas. Mesmo a China, protetora e aliada de Piongiang, aderiu ao bloqueio embora saindo do script algumas vezes.

A Rússia criticou as tiradas beligerantes de Trump, mas não vetou as sanções no Conselho de Segurança da ONU.

Apesar dos protestos da Cruz Vermelha e de outras entidades de que as sanções estavam prejudicando sua  assistência aos famintos norte-coreanos, a estratégia americana funcionou. O povo coreano foi sendo implacavelmente vencido pela fome. E Kim Jong-un, mesmo sendo um ditador, sabia que não iria muito longe nesse panorama desolador.

E a Coreia do Norte rendeu-se à Estratégia da Fome

Trump está seguindo o mesmo caminho no conflito com o Irã.

Pensando no curto prazo, ele estimula uma guerra por procuração de Israel contra o Irã, na qual, com a ajuda dos seus armamentos, ele espera a vitória.

Mas, como os israelenses estão dizendo que já destruíram toda a infra -estrutura bélica montada pelo Irã na Síria, é possível que, por agora, as coisas não irão mais além.

Prevendo essa possibilidade, a Estratégia da Fome já está em execução.

Seu gol é sufocar Teerã, impedindo suas relações econômicas com o mundo e o condenando a uma crise brutal, que devastaria seu povo com a fome. O que inevitavelmente derrubaria o moderado presidente Rouhani, que, repetindo Luiz 14, poderia dizer: aprés moi le deluge (depois de mim, o dilúvio). Pois seria substituído certamente pela linha-dura do exército e do clero, de cujo radicalismo se pode esperar o pior.

A estratégia da fome, adotada por The Donald, começou com a saída dos EUA do Acordo Nuclear com o Irã.

E o fechamento do mercado americano às empresas que negociarem com os iranianos.

Em consequência, o Departamento do Tesouro apressou-se em revogar as licenças para a venda de aviões da Boeing e de partes de aviões para a Airbus e a ATR.

A IranAir pretendia modernizar sua frota de aviões de passageiros- muito velhos e inseguros- comprando 100 aviões da Airbus, 80 da Boeing e 20 da ATR.

A AirBus e a ATR usam algumas peças americanas, sendo, portanto, atingidas pelas sanções.

Com o cancelamento das compras, os países europeus perdem bilhões de dólares. Trump espera que seja apenas uma amostra do que será a proibição virtual dos negócios da Europa com o Irã.

Tudo indica que ele despreza os estadistas europeus, acha que se submeterão rapidamente.

Os países da Europa, salvo uma ou outra ocasião, sempre obedeceram às decisões dos EUA. A única exceção aconteceu na invasão do Iraque, quando a França e a Alemanha foram contra.

Há poucos anos, o presidente Obama impôs sanções americanas contra a Rússia, punindo-a pela anexação da Crimeia e o apoio aos rebeldes da maioria pró-Moscou dos habitantes do leste ucraniano.

E solicitou que seus aliados europeus fizessem o mesmo.

No princípio, eles relutaram em atender a esse comando pois o comércio exterior da maioria deles seria bastante prejudicado com a Rússia no ostracismo.

Mas, como o uso do cachimbo entorta a boca, os países da Europa, acostumados à proteção americana contra a expansão soviética na Guerra Fria, acabaram seguindo Washington, mesmo contra seus interesses.

Agora, poderá ser diferente.

Em primeiro lugar porque, ao contrário do Iêmen e da Coréia do Norte, o Irã não depende da importação para alimentar seu povo. O país produz 90% do total dos alimentos necessários.

Não vai morrer de fome por mais cruéis que sejam os efeitos das sanções com que The Donald sonha.

E a Europa parece viver um momento diferente.

Há cerca de um ano, quando Trump retirou os EUA do Acordo de Paris, Merkel abriu os olhos: ‘’Os tempos em que nós podíamos confiar completamente em outros, acabaram”, declarou.” Eu descobri há poucos dias, que nós, europeus, temos de verdadeiramente, conduzir nossos destinos com nossas próprias mãos.”

Quando a Casa Branca ameaçou as empresas europeias  que tem interesses no Irã, os governos do continente decidiram-se a agir como a líder alemã propunha.

Para não perderem o que já investiram e o que esperam investir no Irã, negam-se a seguir o presidente dos EUA, em sua ilegal e absurda tentativa de assassinar o Acordo Nuclear com o Irã.

Pretendem resistir, mesmo se chocando com a política americana no Oriente Médio, voltada para a destruição do país dos aiatolás.

Já marcaram uma reunião em 31 de maio para discussão de medidas capazes de defender suas empresas contra o diktat da Casa Branca.

A tentativa de Trump de isolar Teerã voltou-se contra ele. São os EUA é que ficaram isolados diante da rejeição internacional à retirada americana.

Ao contrário do Iêmen e da Coreia do Norte, o Irã não está sozinho.

Além do prometido apoio de Alemanha, França, Reino Unido e Itália, terão por si a China e a Rússia, que não vão deixar de aproveitar as vantagens da economia iraniana. Além disso, outros países de peso, como o Paquistão e a Turquia, mantem bom relacionamento político com Teerã e, o que costuma valer mais, enormes projetos já em execução, em cooperação com os iranianos.

Menciono ainda a Áustria, dura crítica da retirada americana, e a Bélgica, que seria prejudicada seriamente com a proibição dos negócios com o Irã.

Finalmente, o próprio povo americano já se pronunciou contra a desastrada medida do seu governo.

Pesquisa IPSOS-Reuters, realizada no período 4-8 de maio, revela que a maioria da população era favorável ao Acordo Nuclear com o Irã por um placar de 42% x 29%.

É um resultado indigesto para The Donald, que alimenta sonhos de reeleição.

 

 

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