Escravas sexuais e trabalho forçado alimentam a guerra comercial entre Japão e Coreia do Sul.

Em 1910, o Japão anexou a Coreia e a reteve como colônia até 1945, quando terminou a Segunda Guerra Mundial.

A ocupação japonesa foi brutal. Durante a guerra (1941-1945), mais de 200 mil moças e até meninas coreanas foram escravizadas e colocadas em bordéis para servir como prostitutas aos soldados japoneses. O exército imperial as chamava de “mulheres de conforto”.

Na mesma época, devido à escassez de mão de obra, o Japão recrutou 670 mil coreanos e cidadãos de outras nações asiáticas, forçando-os a trabalhar em campos e fábricas, em condições análogas à escravidão

Nos anos que se seguiram ao fim da guerra, as relações políticas entre coreanos e japoneses normalizaram-se.

Quando a península coreana foi dividida em dois países, o governo da Coreia do Sul estreitou seus laços de amizade com Tóquio.

Porém, as malfeitorias praticada  pelos japoneses nos tempos da ocupação, especialmente no período da guerra, persistiram na memória dos coreanos.

O governo japonês pediu desculpas oficialmente pelo que fizera, prostituir à força muitos milhares de  mulheres coreanas.

Não era o bastante.

Em 2015, Tóquio ofereceu-se para indenizar as vítimas dos crimes praticados durante a ocupação. Apenas as “mulheres de conforto” sobreviventes seriam contempladas.

Reunidos, os dois governos concordaram numa cifra de 8,8 milhões de dólares. Dinheiro que foi aplicado por Seul na reconstrução da infra-estrutura. A partir daí o país cresceu, tornou-se uma potência industrial.

Mas os ressentimentos do povo coreano não se apagaram, o  japoneses nunca foram perdoados.

Ainda viviam grande número de coreanos, que haviam sido forçados a trabalhar como escravos para o esforço de guerra japonês, que não receberam quaisquer compensações.

O governo de Seul declarou que propusera a formação de um fundo para beneficiar esses cidadãos, que fora rejeitado pelas autoridades do Japão.

Mas a justiça coreana assumiu a causa dos trabalhadores: uma corte local condenou a Mitsubishi e outras duas empresas japonesas a indenizarem todos os coreanos que trabalharam à força nas suas fábricas durante a guerra. Para assegurar o cumprimento da sentença, foram congelados bens destas empresas.

O primeiro-ministro nipônico, Shinzo Abe, protestou. Alegou, que todas as compensações devidas por suas ações criminosas na guerra já tinham sido quitadas por acordo entre os dois países, no qual a Coreia do Sul recebera dos japoneses 300 milhões de dólares, em ajuda econômica, e 500 milhões em empréstimos. Portanto,  o presidente Moon da Coreia do Sul deveria revogar a decisão da sua Justiça. O que Moon negou-se a fazer, seu governo não tinha poderes para interferir no judiciário.

Abe não aceitou esta resposta. Não seria o comportamento de uma nação amiga. E o primeiro-ministro tratou de rebaixar as relações comerciais com a Coreia do Sul, retirando esse país da lista de nações para as quais os produtos industriais e de high-tech japoneses são negociados pela via rápida. Além disso, Tóquio passou a restringir as exportações de produtos químicos usados para a fabricação de smart-phones, chips e telas digitais.

Medidas duras, pois as indústrias sul-coreanas de semi-condutores são de elevada importância para a economia do país.

Moon subiu o tom: “Ficou clara de quem é a responsabilidade para piorar a situação dos nosso laços com o Japão. Eu advirto que o governo japonês será totalmente responsabilizado pelo que acontecerá daqui para a frente. Não seremos derrotados pelo Japão novamente.“

Retaliando, por sua vez, ele pretende remover o Japão de sua lista de nações com negócios favorecidos e acelerar reclamação à Organização Mundial do Comércio sobre os controles das exportações japonesas para a Coreia do Sul. Estão sendo consideradas também outras ações punitivas que certamente acelerarão a escalada da crise comercial.

Enquanto isso, avança a todo vapor na Coreia do Sul uma campanha popular pelo boicote dos produtos japoneses.

E vai indo muito bem. Por exemplo: as importações de carros e cervejas do Japão caíram vertiginosamente. Em julho, as importações de carros baixaram 17% e as de cerveja, 45%.

Não há dúvidas de que uma guerra comercial entre os dois países já foi detonada.

Tanto o Japão quanto a Coreia do Sul tem interesses importantes na questão.

Com uma dúzia de ações correndo nos tribunais sul-coreanos pedindo a firmas japonesas indenizações pelos trabalhos forçados, Tóquio teme que muitas de suas empresas sejam severamente penalizadas. E o que é pior, o sucesso desses pleitos estimularia a formação de uma verdadeira bola de neve, com outros países também propondo ações indenizatórias, já que tiveram trabalhadores (da Tailândia, Mongólia, China e Birmânia) submetidos às mesmas condições.

Ao todo, foram 670 mil.

O que poderia representar indenizações somando trilhões de dólares. O governo Abe não pode, evidentemente, admitir essa possibilidade.

Quanto aos interesses  sul-coreanos, alguns analistas afirmam que Moon está de olho na inclusão da China, assumindo o mesmo papel no comércio exterior do seu país, até agora interpretado pelo  Japão.

A China fabrica os produtos, cujo comércio o Japão está restringindo. E seu mercado interior tem condições de absorver não só tudo que era destinado ao Japão, como também outras mercadorias sul coreanas.

Esta diversidade de interesses pode levar até a um rompimento de relações.

O que deixaria a Coreia do Sul mais à vontade  para se aproximar de Beijing.

Enquanto isso, o Japão ficaria em situação difícil, tendo de lidar com milhares, senão dezenas de milhares de processos.

Caso todos fossem vitoriosos, se  somaria um total de compensações praticamente impossível de ser atendido.

Não vou dizer que tudo isso deve terminar em pizza.

Mas não creio que o Japão corra riscos de pagar indenizações  desmedidas, com potencial de apagar o sol nascente.

Muitos e muitos anos de disputas judiciais, acordos  e pagamentos ameaçam mau tempo para a economia do país.

Acredito que o Japão de hoje terá de pagar outra vez pelos crimes de guerra cometidos no passado.

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