Emirados Árabes Unidos contratam mercenários para assassinar adversários.

A União dos Emirados Árabes (UEA) é uma ditadura de regime monárquico.

Representa o principal aliado da coalizão de 9 países liderados pela Arábia Saudita na guerra do Iêmen.

As forças da UEA estão mais presentes no cerco de Hodeida e, principalmente, na cidade de Aden e no sul do país, onde são uma pedra no sapato do próprio presidente Hadi, que os Emirados e parceiros prometem restaurar no governo do país, em parte sob os rebeldes Houthis.

Os métodos adotados pelos serviços de segurança da UEA não são exatamente os recomendados pelos manuais do exército suíço.

Pesquisas da Associated Press e do Human Rights Watch descobriram uma rede de prisões, onde suspeitos de terrorismo são interrogados com as mais cruéis formas de tortura.

Estima-se que muitas centenas desses indivíduos (dois mil, segundo  familiares) desapareceram em mais de 18 prisões clandestinas.

Nesses locais, as torturas são aplicadas quase que diariamente.

Além dos já conhecidos espancamentos, ataques sexuais e choques elétricos, os “especialistas” usam um método extremamente bárbaro: o grill. Eles amarram os suspeitos num espeto que gira sobre um círculo de fogo, como num churrasco.

Mas não são apenas os houthis e os jihadistas os reprimidos pelas forças da UAE.

Em Aden, elas disputam o controle da região com grupos políticos locais pró e contra Hadi.

Para dar um jeito nesses iemenitas mal agradecidos, a UEA está utilizando a Spear Operations Group, empresa baseada nos EUA, que emprega mercenários, em geral veteranos do exército americano.

O Buzz Feed de 16 de outubro publicou extensa reportagem a respeito.

Abrahan Golan, o dono da Spear, informou aos repórteres que sua empresa foi contratada para assassinar inimigos dos Emirados.                    É simples assim.

Um dos alvos, Ali Mayo, lidera o partido Al-Islah, ramo da Irmandade Muçulman, que os reinos do Golfo consideram uma organização terrorista.

Na verdade, nem Mayo, nem o Al-Islah, tampouco a Irmandade são terroristas.

O Al-Islah é um partido político legítimo, não ataca os militares da UEA  com atentados terroristas, limita-se a usar manifestações, discursos e folhetos. Um dos seus ativistas chegou a ser indicado para o Prêmio Nobel da Paz

Golan falou ao Buzz Feed sobre um programa de assassinatos seletivos da UEA, protagonizado pela sua Spear Operations Group. Ele próprio chefiou o grupo de mercenários na ação para assassinar Mayo: “Eu estava na direção. Nós fizemos o serviço. A UEA sancionou.”

O que o capo desconhecia é que o atentado não deu certo.

Mayo escapou vivo da explosão de uma bomba plantada pelos executores.

Depois disso, ele sumiu dos meios políticos iemenitas durante um certo tempo, realizando um trabalho para o governo Hadi.

O atentado fracassado, em 29 de dezembro de 2015, marcou o início da temporada de assassinatos seletivos, protagonizados pelos mercenários  sob contrato da realeza dos Emirados Árabes Unidos.

De acordo com Gregory Johnsen, ex-investigador da ONU, de 25 a 30 membros do Al-Ilah, além de vários clérigos, foram misteriosamente liquidados pelos mercenários.

Assim, no Iêmen, durante muitos meses, os pistoleiros do Spear, em geral ex-soldados americanos treinados pelas forças armadas de Tio Sam, mataram por dinheiro grande número de políticos e líderes islâmicos, apontados pelo governo da UEA.

Não se sabe quantos deles eram terroristas e quantos apenas simples cidadãos, incômodos por se oporem à política das tropas dos Emirados, em Aden.

O trabalho sujo do Spear contraria lei americana que não permite “conspirar para matar, raptar ou torturar”alguém em outro país.

Por outro lado, nenhuma lei dos EUA proíbe que um cidadão americano seja contratado como soldado de um exército estrangeiro.

O enquadramento legal da Spear torna-se, portanto, nebuloso.

Os contratantes usam de um artifício para proteger os mercenários dessas empresas malignas de possíveis decisões judiciárias. Eles são nomeados oficiais pelo país contratante e não podem, assim, ser processados pela América, porque agem sob o manto das normas do país onde atuam.

Seja como for, empresas que prestam serviços militares a outras nações precisam ser reguladas pelo departamento de Estado dos EUA. O qual jamais forneceu a devida autorização a qualquer delas.

Não dá para acreditar que os EUA estejam por fora desse programa mortífero da UEA, um país cujos militares de todos os níveis são treinados e armados pelos americanos, numa guerra monitorada pelo exército de Trump.

A UEA não foi quem primeiro promoveu o assassinato de inimigos selecionados um a um.

No apogeu do gangsterismo americano, a chamada Murders Inc matava sob encomenda, mediante pagamento.

Antes da UEA, o Mossad, serviço secreto israelense, praticava e continua praticando assassinatos de inimigos do regime sionista.

Mas suas ações não são frequentes.

O governo Obama usou drones para liquidar suspeitos de terrorismo que não tinha como prender.

The Donald mantém esse discutível hábito, porém em menor escala.

Ele prefere lançar forças especiais atrás das linhas inimigas, contra grupos de pessoas consideradas terroristas ou mesmo suspeitas.

Os Emirados só são originais nesse tipo de guerra porque, ao invés de usar equipamentos ou soldados de suas próprias forças, preferem contratar veteranos altamente treinados.

Falando ao Buss Feed, Golan exaltou as grandes vantagens oferecidas pelo uso de empresas de mercenários no contraterrorismo.

Destacou a precisão dos ataques, através de profissionais qualificados na arte de matar sem fazer vítimas inocentes.

Na missão que alvejava Mayo nada disso se viu.

Como fracassou, levou zero em eficiência.

Os funcionários do escritório de Mayo- que não eram culpados de nada- – teriam morrido se o explosivo colocado na porta tivesse funcionado. Por outro outro lado, os aspectos negativos são relevantes. Parece-me eticamente reprovável já que se trata de execuções extralegais. Há 10 séculos, desde a Magna Carta, num país civilizado ninguém pode ser condenado a pena de morte ou de prisão sem ser julgado por um tribunal.

Os assassinos privados operam fora da cadeia de comando de um exército, se cometem crimes de guerra, em que juizado serão processados?                                                                                                    Sendo as operações dos mercenários secretas, as vítimas são  selecionadas sem qualquer controle da sociedade. Com isso, as injustiças podem ser frequentes, inocentes injustamente vitimados.                            O chefe da Spear Operation Group sustenta que os EUA deveriam contratar serviços semelhantes aos que ele oferece. Tudo que desejava era uma oportunidade para discutir suas ideias com quem de direito. Antes de reafirmar que tinha razão, Golan admitiu: “Talvez eu seja um monstro. Talvez eu deveria ser preso. Talvez eu seja um mau sujeito.”

 

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