Devaneios imperiais.

Às vezes Donald Trump esquece que os EUA não são proprietários do planeta e sai-se com rompantes imperiais.
No seu livro “Medo”, o jornalista Bob Woodward, conta que, informado de que em áreas remotas do Afeganistão havia ricas reservas minerais, The Donald ordenou a um grupo de cortesãos que enviassem alguém para lá, a fim de “tomar isso para nós.”
Ninguém lhe mostrou que seria um absurdo total, mas tampouco se tomou qualquer atitude para obedecer ao chefe. Não foi necessário. O presidente nunca mais falou no assunto.
Recentemente, manifestou-se mais uma vez esta bizarra falta de interação presidencial com o mundo exterior.
Foi quando, depois de abandonar seus aliados turcos às iras da Turquia, o exército americano deixou 200 homens para guardar os campos petrolífero de Deir em-Zor, Trump explicou porque: “O que eu pretendo fazer, talvez, é fazer um acordo com a Exon Mobil ou uma das nossas grandes companhias para ir lá e fazer as coisas certas…e espalhar a riqueza (CNBC, 28-10-2019).”
Nos tempos do império romano, ou mesmo do império inglês, a metrópole poderia numa boa se apossar dos bens de nações sob seu domínio.
Mas, desde o século 20, as coisas mudaram.
No nossos tempo, esse roubo das propriedades petrolíferas sírias, além de profundamente anti-ético, seria acoimado como violação de soberania, um crime segundo o direito internacional.
Não que os EUA não os cometa. Mas, eles o fazem de modo disfarçado, invocando valores ínclitos como segurança, auto-defesa, interesse nacional, etc
Nunca de maneira tão explícita e despudorada.
Talvez The Donald tenha sido influenciado pelos seus assessores quando, um dia depois, atribuiu um objetivo até discutível à operação militar americana. O petróleo da Síria seria uma prioridade da segurança nacional, as tropas de Washington ocuparam a área de Deir em-Zor para proteger as reservas da região expostas ao deus dará.
Seguiram-se explicações mais detalhadas por elementos da administração yankee.
Ao anunciar o envio de mais tropas dos EUA para reforçar os soldados já instalados em Deir em-Zor, Mark Esper, o secretário de Defesa, informou que o objetivo americano era impedir que as instalações petrolíferas caíssem nas mãos dos russos e dos sírios, aliados de Damasco e mesmo do ISIS (Defense News, 28-10-2019)
Concluímos que os EUA as roubaram do seu dono, o Estado sírio, para impedir que esse país, com a ajuda do seu aliado, o governo de Moscou, recuperasse o que era seu.
Dizer que guerra é guerra não vale. Ao que consta, há paz entre o país de Abraham Lincoln, tanto com a Rússia, quanto com a Síria.
Mas Esper alterou mais um pouco as motivações do seu país: “Nós queremos nos certificar de que o SDF (movimento dos curdos, reforçado por milicianos árabes) tenha acesso aos recursos (de Deir em-Zor) para guardar os prisioneiros (do ISIS) e armar suas próprias forças para nos dar assistência para derrotar o ISIS.”
Já seguiram para a Síria 400 soldados americanos, muitos veículos armados e espera-se que, em breve tanques os acompanharão.
Há alguns reparos que devem ser feitos aos esclarecimentos de Esper.
O ISIS acabou como força militar organizada, mantém apenas alguns bandos espalhados no deserto, nenhum deles homiziado na região central do vale do rio Eufrates, que é onde fica Der em-Zoir.
Acho que o governo Trump está oferecendo esse campo de petróleo aos curdos como prêmio de consolação, um presente para compensar o abandono dos seus fiéis aliados.
Provavelmente há outro objetivo envolvido.
Pegou mal entre militares e congressistas americanos o anúncio do presidente, há meses passados, de que seu exército sairia da Síria.
Para acalmar essa gente incômoda, ele teria tratado de tentar consertar aquela sua impulsiva decisão.
Tendo uma forte presença militar em Deir em-Zor, o feliz marido da maravilhosa Melanie mantem os EUA na Síria, sem precisar voltar atrás, o que não seria bem visto pelo seu eleitorado.
E ainda alavancaria a influência do governo dos EUA na discussão do tão esperado acordo de paz na Síria, que parece estar perto.

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