Desta vez, Trump não pisou na bola.

A grande mídia americana tratou o encontro Trump-Putin como se fosse uma verdadeira luta de pesos-pesados.

Nos EUA, o veredicto foi quase unânime: Trump perdeu. E por nocaute.

A maioria dos políticos e praticamente toda a imprensa ergueram-se para condenar o desempenho do seu presidente, nos mais duros termos.

Senador John McCain (Partido Republicano):’Uma das mais desgraçadas performances de um presidente americano.”

John Brennan, ex-diretor geral da CIA: “Foi simplesmente traição. Os comentários de Trump não foram apenas imbecis, ele está totalmente no bolso de Putin.”

A parlamentar Nancy Pelosi (Partido Democrata), além de destacar a “fraqueza de Trump”, afirmou que sua atuação “provou” que o russo teria chantageado The Donald, ameaçando revelar algo muito sério contra ele.

Enquanto isso, a imprensa chamou Trump de “fantoche”, “poodle de Putin”, “boneco de ventríloquo”, entre outras designações nada amáveis.

Acredito que foi muito barulho por nada.

Apesar de tudo, esse encontro tão criticado deixou efeitos  pelo menos promissores.

O excessivo amargor das críticas vem, especialmente, do fato da maioria dos políticos e muitos jornalistas serem fanáticos cultores do excepcionalismo americano.

Como escreveu Justin Raymondo (Antiwar, 19 de julho) “Os sabichões estão enfurecidos com a ‘equivalência moral’ – como ousa o presidente por a Rússia no mesmo plano moral do puro- como-a-neve Estados Unidos da América?”

E Trump cometeu esse pecado mortal quando atribuiu aos EUA as culpas no péssimo relacionamento entre os dois países, explicando depois que Moscou foi co-responsável.

Quanto à questão da suposta interferência russa nas eleições de 2016, Trump declarou confiar nas posições antagônicas de Putin e dos serviços de segurança americanos.

Ou seja, ficou em cima do muro.

Não estava errado. Pelo direito, há séculos vigente nos países civilizados, alguém só é considerado culpado depois de ser condenado num tribunal.

Como diz o velho samba: primeiro é preciso julgar, para depois condenar.

O que não aconteceu ainda. Os 12 oficiais russos foram apenas indiciados pelo Conselho Especial que investiga o hacking da campanha Hillary Clinton. A Justiça americana não se pronunciou ainda. E não o fará tão cedo, pois sequer se instaurou um processo jurídico.

Ao mostrar confiança tanto em Putin, quanto no FBI, The Donald pensava nos seus próprios interesses. Fora uma contradição, claro, mas lançava dúvidas sobre a culpabilidade da Rússia, que comprovada, pesaria contra ele como o beneficiário da suposta intervenção de Moscou, prejudicando Hillary Clinton.

O que realmente teve importância na reunião de cúpula foi o destaque dado por Trump à necessidade de seu país e da Rússia acertarem as pontas, através de reuniões bilaterais.

Também pegou bem sua insistência em negar que os russos sejam inimigos dos EUA. Devemos ser amigos, no interesse da paz, pregou The Donald.

Bem, com o Kremlin e a Casa Branca se olhando com raiva, tendo já iniciado uma corrida armamentista (inclusive nuclear) e suas tropas se defrontando nas fronteiras de países da OTAN com a Rússia e na Síria, onde atuam militarmente, não se pode descartar a hipótese de um choque não previsto.

Daí a um conflito generalizado seria um pulo.

Que os dois países busquem soluções construtivas para suas divergências me parece muito, mas muito legal.

Quem poderia ser contra?

Amplos setores da sociedade americana.

Para eles, a Rússia é o inimigo número 1 forever and ever. A existência desse rival poderoso, contestando a hegemonia americana – não exatamente no mundo inteiro, mas em diversas das suas regiões- é de longe a principal justificação dos imensos gastos com defesa dos EUA.

Preparando o país para encarar uma guerra possível, o orçamento americano prevê gastos militares de 700 bilhões de dólares, em 2018 e 716 bilhões, em 2019. É muito dinheiro, carreado em grande parte para os ávidos bolsos das empresas de armas. Que vão diminuir caso Trump e Putin se entendam e a Rússia deixe de ser vista como um lobo mau.

Portanto, jogue pedra no Donald, quando ele falar em paz com o Vladimir.

Os militares também são adeptos daquele antigo provérbio romano, si vis pacem, para bellum (se você quer a paz, prepara a guerra). Nessa conjuntura, típica de Guerra Fria, seu papel é mais valorizado pela sociedade, recebem funções importantes, grandes verbas para seus projetos bélicos, ouvidos atentos a suas palavras. Não é à toa que os generais abundam no governo Trump.

Em discurso no Dia Dos Veteranos, em 2014, o general McMaster, antigo Conselheiro de Segurança Nacional de Donald Trump, sintetizou a posição dos seus colegas de farda: ”Pensando claramente no problema da guerra e dos armamentos, ambos são infelizmente necessários e o melhor meio para evitar a guerra.”

Os militares e os empresários de armas formam o complexo industrial-militar, de que falou o general Eisenhower no seu discurso de despedida à presidência dos EUA. Preocupado, ele temia que esta união poderia vir a assumir um espaço proeminente no governo de Washington.

O ex-representante democrata, Dennis Kucinick atualizou Ike (apelido de Eisenhower), acrescentando os serviços de inteligência ao complexo.

Eles abrangem dezenas de agências dedicadas ao contra -terrorismo, à espionagem e à defesa da segurança. E desejam manter seus poderes. O que, humanamente, consideram fundamental para a nação.

Claro que uma suavização do clima tenso – e mesmo agressivo- nas relações atuais entre as duas grandes potências reduziria o grande respeito atribuído nos dias de hoje aos serviços de inteligência, como a CIA, o FBI e o NRA.

Outros grupos adversários das-boas relações com Moscou são os chamados neocons (neo-conservadores), ideólogos da expansão do império americano, sem escrúpulos no uso de forças militares; os conservadores do partido Republicano, que associam a Rússia de Putin à detestada e assustadora União Soviética e os liberais do Partido Democrata, que demonizam os russos com o fim de sujar a imagem de The Donald.

Sim, Trump não merece confiança e Putin é maquiavélico.

Deixando o maniqueísmo de lado, acho que a reunião deles tem chance de ficar na história como um capítulo vital para a paz.

Não houve vencedor, nem vencido.

Mas ficou um saldo válido: a ideia de que um novo mundo – menos conturbado- poderá ser construído.

Tudo depende dos próximos encontros entre os dois chefes, quando as frases bonitas terão de ser substituídas por decisões justas e concretas.

Só aí saberemos se a realidade pode ser igual à esperança.

 

 

 

 

Uma ideia sobre “Desta vez, Trump não pisou na bola.

  1. Parabéns amigo Eça pela análise perspicaz e lúcida.. Creio que houve apenas um “ruído”: quando, no final, você fala no saldo válido, salvo engano, creio que o correto seria o de um mundo menos conturbado . Repito: Parabéns. Abraço. Saudades do amigo inesquecível. Chico Socorro, Florianópolis.

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