A conquista da Escandinávia reanima a social-democracia europeia.

Nos últimos anos, mudanças políticas inquietantes vêm  acontecendo na Europa.

Impulsionados pelo descrédito nos partidos tradicionais, os partidos de extrema- direita cresceram vertiginosamente.

São todos nacionalistas, para eles cada país deve rejeitar regras ditadas por acordos multilaterais ou por entidades supranacionais, especialmente a União Europeia.

Surfando na onda anti-imigrantes, os ultradireitistas não hesitam em propor contra essas pessoas medidas até desumanas, não condizentes com os elevados princípios da sociedade europeia.

Hoje, esses extremistas são fortíssimos, especialmente na Europa Oriental.

Na Hungria, o regime do populista Orban vem restringindo as liberdades democráticas, aproximando-se cada vez mais do modelo autoritário. E o que é muito grave, com apoio majoritário do povo, que deu a vitória ao Fideez, partido de Orban, com 50% dos votos em recentes eleições parlamentares.

Há muito tempo, Orban se apresenta como o grande defensor da Europa contra o alegado predomínio dos imigrantes. Ele alertou a opinião pública sobre o advento de “uma Europa com população misturada e sem senso de identidade.”

Na Polônia, o governo tenta impor reformas para submeter o Judiciário, o que já valeu ao país ameaças de suspensão da União Europeia.

O Partido Democrático Esloveno (radical-direitista, apesar do nome), tornou-se o mais votado nas últimas eleições. Só não assumiu o governo porque uma coligação de partidos adversários obteve soma maior de votos.

Na Estônia, outro grupo extremista, o Partido Conservador do Povo, que ganhou seus primeiros assentos no parlamento em 2015, quatro anos depois, mais que dobrou sua votação. É agora o terceiro maior partido do país.

Consideráveis avanços ocorrem também na Europa Ocidental.

Na Itália, o racista La Lega, participa da coalizão governamental, com seu líder, Matteo Salvini, o ministro da Justiça, sendo a figura dominante no gabinete ministerial, presidido pelo populista e anti-stablishment movimento 5 Estrelas

A direitista Reunião do Povo Francês foi o partido mais votado da França nas eleições do parlamento europeu. Sua líder, Marine Le Pen, qualificara-se anteriormente para disputar o segundo turno nas eleições presidenciais.

Islamofóbica e fascista, a Alternativa é hoje o maior partido de oposição ao governo alemão, surfando no combate à política de imigração, tida pela maioria da população como exageradamente liberal.

Na Áustria, o Partido da Liberdade (cruel ironia) tornou-se o primeiro partido de extrema-direita a ganhar o poder, partilhando-o com os conservadores. Neste ano, perdeu sua posição, com a renúncia do líder direitista, diante de acusações de corrupção exibida em vídeo.

Cotado para vencer nas eleições parlamentares holandesas, o Partido da Liberdade, virulentamente anti-imigração, acabou em segundo lugar, muito longe do vencedor. Mesmo assim, foi um grande resultado para um partido fundado há apenas um ano antes do pleito.

Os partidos conservadores e liberais europeus, de um modo geral, conseguiram acomodar-se nos novos tempos e sofreram perdas menores.

Continuam governando os três principais países: a Alemanha, a França e o Reino Unido.

Depois de permitir o ingresso de um milhão de imigrantes, a primeiro-ministro democrata-cristã Ângela Merkel virou alvo preferencial dos partidos direitistas.

A corajosa decisão de Merkel foi mal vista por grande parte da população. Mesmo assim, embora seu partido tenha perdido muitos votos, ele se manteve No poder graças ao grande prestígio da sua líder.

Enfrentando as multidões dos manifestantes coletes- amarelo , o presidente Macron, de tendência liberal, terá dificuldades para continuar à frente do seu país depois das próximas eleições.

O grande desencanto que se esboça em relação às expectativas criadas por ele ameaça desaguar na extrema-direita, onde madame Le Pen pontifica.

Já no Reino Unido, tanto o partido conservador, do governo, quanto o oposicionista Labor (socialista), que há muitos anos revezam-se no poder, tem sua posição seriamente ameaçada por um partido direitista: o Brexit, que nas recentes eleições europeias surgiu em primeiro lugar entre todos partidos ingleses.

É possível, se não provável, que haja uma eleição especial devido ao fracasso do governo conservador em aprovar um acordo para a saída dos ingleses da União Europeia.

Desde já, o Brexit apresenta-se como favorito, brandindo as populares bandeiras do nacionalismo inglês e do combate á imigração.

Neste terremoto que está abalando fundo as estruturas partidárias, os socialistas e social-democratas (na Europa são a mesma coisa) foram os mais atingidos. Especialmente na Europa Ocidental, embora sua principal tese, o Bem Estar Social, plantada por eles em diversas nações, foram mantidas, mesmo por regimes liberal/conservadores.

Nesses Estados, partidos social-democratas ou socialistas sempre estiveram no primeiro plano, disputando o governo com partidos de centro ou de centro-direita.

Continuam relevantes no Reino Unido, mas caíram assustadoramente na França, na Itália e na Alemanha.

Também marcaram êxitos, voltando a assumir os governos da Espanha e de Portugal.

No entanto, seu feito de maior impacto foi a conquista de praticamente toda Escandinávia.

Entre os cindo países da região, somente um, a Noruega, não é atualmente governado por eles. Apesar das urnas do pleito de 2017 terem consagrado os social-democratas como o maior partido do país, foram superados pela coalisão de quatro partidos liberais conservadores, que, assim, chegaram ao poder.

Ainda no começo deste mês, realizaram-se eleições na Dinamarca, até então governada pelos conservadores.

Ganhando 90 dos 170 assentos no parlamento, o “bloco vermelho” venceu, aparecendo os social-democratas com a maior votação. Em consequência, sua líder, Mette Fredericksen, foi alçada para o cargo de primeiro-ministro.

Uma das principais propostas do partido na campanha eleitoral foi a volta dos investimentos em bem estar social, reduzidos consideravelmente pelo ajuste fiscal do regime conservador, que até passara a cobrar por benefícios sociais antes gratuitos.

Foram igualmente focados com maior destaque a defesa do meio ambiente e, surpreendentemente, a permanência da política anti-imigração do governo conservador. Tão dura que impôs medidas como a proibição do uso de burkas ou niqabs pelas mulheres islâmicas em lugares públicos e a permissão para recursos dos refugiados serem tomados pela polícia para pagar o tratamento deles.

Criticada pelos defensores dos direitos humanos, essa decisão do partido foi claramente oportunista, destinada a ganhar votos da maioria da população, contrária às vantagens concedidas pelo Estado aos refugiados.

Deu certo, o radical-direitista Partido do Povo Dinamarquês ficou sem sua marca diferencial e acabou com menos da metade dos votos recebidos no pleito anterior.

Na Suécia, o Partido Socialista venceu nas eleições de 2018, recuperando assim o governo, perdido para os conservadores há duas legislaturas.

A Suécia tem a mais positiva legislação em favor dos imigrantes. No entanto, cresce no país um sentimento virulentamente hostil a eles, estimulado pelo neo-nazista Democratas Suecos, que se opõe ao multiculturalismo e pede leis de imigração muito rigorosas.

No pleito de 2018, eles obtiveram 18% dos votos, resultado significativo pois é apenas a segunda vez que o partido vai às urnas.

Uma coligação de centro-esquerda venceu as recentes eleições finlandesas. O primeiro-ministro escolhido é membro do movimento Esquerda-Verde e os socialistas participam destacadamente do ministério.

A principal proposta da coalizão centro-esquerdista foi o aumento dos gastos sociais, a ser pago por um novo imposto.

O povo finlandês desfruta de uma excelente qualidade de vida. Segundo o último ranking do World Happiness Report, a Finlândia é o país mais feliz do mundo, seguido pela Dinamarca, Noruega, Islândia e Holanda.

Possivelmente esta invejável situação condiciona a cidadania do povo finlandês, que os leva a aceitar os universalmente odiados novos impostos, quando importantes para a comunidade.

Em setembro de 2017, uma coalizão dos partidos Verde de Esquerda, Independente e Progressista (os dois últimos de centro-direita) venceu as eleições parlamentares da Islândia.

O primeiro-ministro do governo pertence aos Verdes de Esquerda -partido muito próximo dos social-democratas..

Neste país, a extrema-direita não tem chances.

O estabelecimento da social-democracia como força política dominante na Escandinávia, interrompeu, e em alguns países fez retroagir, a expansão da extrema direita populista.

Os países nórdicos não estão entre os mais poderosos do Velho Mundo.

No entanto, são notáveis pelo equilíbrio que suas sociedades apresentam e, especialmente, pelos índices de qualidade de vida, os mais altos do mundo, fruto da consolidação do Estado do Bem Estar Social.

Os líderes dos partidos democráticos dos países líderes do continente- Alemanha, França, Reino Unido e Itália- teriam muito a aprender com eles.

 

 

Uma ideia sobre “A conquista da Escandinávia reanima a social-democracia europeia.

  1. Caro Eça. Excelente a sua perspicaz análise da situação político-social na Europa – Oriental e Ocidental. Nossos líderes políticos, sobretudo aqueles que representam o avanço, a luta pela diminuição da vergonhosa desigualdade social em nosso País, teriam muito a ganhar com a leitura atenta dessa análise.
    Um forte abraço.
    Chico Socorro, Florianópolis.

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