Congresso americano não quer os EUA cúmplices no morticínio do Iêmen

Enquanto a imprensa brasileira dá o maior destaque à gravíssima situação da Venezuela, a do Iêmen é esquecida.

Lamentável, pois a crise provocada por esta guerra gerou o que a ONU considera “o maior desastre humanitário do mundo.”

Em fins de 2018, os dados eram impressionantes: numa população de 28 milhões de pessoas, 20 milhões estavam em sério risco de ficarem sem ter o que comer e 12 milhões de crianças dependiam de assistência alimentar para sobreviverem. Doenças epidêmicas e a fome generalizadas já haviam causado a morte de cerca de 85 mil delas.

A guerra do Iêmen já dura quatro anos. Foi lançada por uma coalizão liderada pela Arábia Saudita com o fim de restaurar  no poder o presidente Hadi, deposto pelo movimento houthi.

Os sauditas e aliados contam com abundantes armamentos da maior sofisticação fornecidos pelos EUA , principalmente, e também pela França e o Reino Unido, em volume menor.

Por sua vez, o Irã dá apoio político e militar (pouco relevante) aos houthis.

A estratégia da coalizão é vencer pela fome e a expansão contínua de doenças graves em todas as regiões dominadas pelos inimigos.

Seus ataques desenvolvem-se através de devastadores e contínuos bombardeios aéreos contra zonas residenciais, depósitos de alimentos, usinas elétricas, estações de tratamento de água, rodovias, hospitais, centros de saúde e o bloqueio aéreo e naval para impedir a chegada de alimentos e medicamentos  importados, dos quais o país depende.

O objetivo é muito claro: destruir o país e matar seu povo para forçar a rendição dos que sobrarem, entre os chefes inimigos.

A grande mídia americana vinha fechando os olhos para os fatos desta política digna de Átila e líderes semelhantes.

Talvez devido à pouca divulgação, a realidade desumana e brutal da guerra do Iêmen, foram ignorados pela opinião pública dos EUA durante muito tempo.

O bárbaro assassinato do jornalista Khassorghi, em outubro de 2018, por sicários a mando do príncipe herdeiro e virtual governante doa Arábia Saudita, Mohamed bin Salman, mexeu com a consciência do povo yankee.

A repulsa a um governo capaz de um crime tão hediondo acabou levando as pessoas a abrirem os olhos para as malazartes praticadas impunemente pela ditadura monárquica do deserto.

Criou-se uma onda contra o apoio militar do governo Trump aos sauditas nessa guerra

A ideia de bombas americanas estarem matando crianças, destruindo hospitais e espalhando o horror pelas famílias iemenitas gerou indignação.

Pesquisa do You Gov revelou que 58% dos entrevistados queriam que o governo cortasse as remessas de armas e munições para a Arábia Saudita. Somente 13% manifestaram-se a favor.

O Congresso americano também foi sensibilizado.

Antes do affair Khassoggi,  elementos liberais e progressistas do Partido Democrático já haviam apresentados dois projetos para bloquear o fornecimento de armas americanas ao governo de Riad. Nenhum fora aprovado devido à maioria republicana nas duas casas do Congresso, obediente às Casa Branca.

Um terceiro, já em 2019, passou na Casa dos Representantes, agora dominada pelos democratas, e pelo Senado, graças ao apoio de alguns senadores do Partido Republicano.

Como se esperava, The Donald vetou e não se conseguiu derrubar seu veto porque seriam também necessários 2/3 dos votos de um Senado, onde o presidente mantinha maioria.

Mas o movimento dos contrários à cumplicidade americana na devastação do Iêmen  não desistiu.

Na Casa dos Representantes e no Senado foram apresentadas 22 recomendações, barrando novas vendas de armamentos aos sauditas, totalizando 100 mil bombas, no valor de 8,1 bilhões de dólares.

Para formalizar negócios desse tipo, é obrigatório  que o presidente os submeta ao Congresso para verificar se estariam respeitando as leis dos EUA. As quais preceituam que as armas americanas não podem ser vendidas para um país que as usem contra civis.

Trump sabia que os produtos dos seus “negócios das arábias” seriam destinados pelos sauditas para bombardear o povo iemenita. Para evitar uma rejeição certa, ele dispensou a apresentação ao Congresso, alegando urgência.

Ridículo.

Se houvesse realmente urgência, as bombas teriam de ser mandadas imediatamente para os sauditas e não daqui a diversos meses e até a anos, como está estabelecido.

A única urgência que de fato existe na guerra do Iêmen é provocada, não pelo Irã (como o presidente afirma) mas pela necessidade premente de se resolver a situação desesperadora do povo iemenita.

Por pressão da opinião pública mundial, os sauditas e os houthis chegaram um acordo de cessar fogo, em meados de dezembro de 2018, em Estocolmo.

Havia grandes esperanças que o drama se encaminharia para o fim. Mas a implementação do cessar fogo falhou e as vidas continuam a serem sacrificadas inapelavelmente (Globe Post, 11 de junho).

Nos 3 meses posteriores ao acordo, 788 pessoas foram mortas- 318 por bombardeios indiscriminados, que destruíram 1600 lares, 385 fazendas, 47 comércios e 13 escolas (Independent, 18 de março).

No fim desse período o Armed Conflict Location & Event Data Project informa que o total de mortos nos quatro anos da guerra superava 70 mil pessoas.

Somente entre janeiro e abril de2019, mais de 10 mil iemenitas foram vitimados pela guerra (Refuggee Web, 18 de abril).

Organizações humanitárias informam que mais de 250 mil pessoas foram desalojadas no período de seis meses depois do acordo de Estocolmo. A média de vítimas civis aumentou em um terço do total até agora.

Em função da guerra ou de seus efeitos colaterais, uma criança  morre a cada 11 minutos e 54 segundos.

E o número de pacientes de cólera tratados pelos Médicos Sem Fronteiras, somente de janeiro e março de 2019, passou de 140 para 2.000 por semana, caracterizando-se uma epidemia.

Até o fim deste ano, aproximadamente 131 mil pessoas deverão morrer de efeitos colaterais da guerra (falta de comida, serviços de saúde e infraestrutura) conforme o relatório da pesquisa Assessing The Impact of  War on Development on Yêmen. Somando esse número a 102.000 prováveis mortos em combate chegaremos a um total de 233 mil vidas roubadas.

“O conflito sem fim do Iêmen já reverteu seu desenvolvimento humano em 21 anos”, diz Stephane Dujarric, portavoz da ONU (Middle East Eye, 26 de abril).

Nada disso comove Donald Trump e seus parças, John Bolton, o assessor de segurança nacional e Mike Pompeo, secretário de Estado.

Eles vêm na cumplicidade dos EUA com os sauditas na sua guerra de extermínio excelente oportunidade para a indústria de armas americanas faturar muitos bilhões de dólares.

A costumeira alegação da necessidade de conter a expansão do rival Irã, que eles dão de barato estar por trás dos houthis, é um fato jamais provado.

Claro, ninguém duvida de que The Donald vete as resoluções proibindo as 22 transferências de armas.

Existe uma irritação crescente diante da inação da Casa Branca em fazer algo para que o príncipe saudita, mandante do assassinato de Khashoggi, seja punido.

Os congressistas que defendem a resoluções esperam que desta vez consigam obter número de senadores suficiente para derrubar esse veto. Na Casa dos Representantes, de maioria democrata, ninguém acredita que o veto seja mantido.

Como The Donald já disse, sem armas americanas, os sauditas não teriam como continuar a guerra.

Daí a importância da discussão do fim das transferências de armas a Riad.

Acho que dificilmente a França e o Reino Unido teriam condições de substituir os EUA à altura.

Isso se os dois topassem.

Lembro que, Macron- com os coletes amarelos e o novo primeiro-ministro inglês –com o Brexit, já tem problemas demais.

Não se acham numa situação propícia para abraçarem uma causa mal vista por seus súditos.

 

 

 

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