Bernie Sanders não está morto.

25 políticos democratas disputam a indicação para concorrer pelo partido nas eleições presidenciais de 2020.

Hoje, parece claro que apenas três deles têm chance.

 Kamala Harris, depois de uma participação agressiva e bem-vista no primeiro debate entre os candidatos, chegou a despontar. Agora, na segunda metade de agosto, somente o ex vice-presidente Joe Biden e os senadores Bernie Sanders e Elizabeth Warren estão no páreo.

Sanders, que liderou as primeiras pesquisas, perdeu sua posição para Biden, pouco depois do lançamento desse cidadão. Em seguida, foi minguando, enquanto a senadora Warren crescia e a vantagem do vice de Obama sobre os demais aumentava.

No começo de agosto, a maioria dos experts considerava Biden praticamente vencedor, embora se visse em Warren, que ascendera ao segundo, um azar capaz de atropelar na reta final.

E, de fato, pesquisa do Howard X, realizada entre 22 de julho e 4 de agosto, mostrava Joe Biden galopando 21 pontos na frente, com 31%, seguido pela senadora por Massachusets com 16%, ficando Sanders para atrás, amargando um índice de preferência restrito a meros 12%.

Em agosto, surpresa! O senador de Vermont foi se recuperando, passou Elizabeth Warren e reduziu a diferença que o separava de Biden, de 19% para 10%.

Pesquisa do mesmo Harris X , entre 15 e 18 de agosto, apresentou o seguinte resultado; Biden, 26%- Sanders, 16% e Warren, 12%.

E o candidato socialista, que parecia definitivamente morto, renasceu e é apontado como alguém que ainda pode bater Biden.

No início da campanha, explicando a rápida queda de Bernie Sanders diante de Joe Biden, dizia-se que o público americano considerava o ex vice de Obama o único candidato capaz de derrotar Donald Trump. Daí sua vertiginosa escalada.

Desde julho viu-se que o argumento não era correto.

Pesquisas de vários institutos mostravam que, não apenas Biden , também seus dois mais diretos perseguidores venceriam Trump se a eleição fosse no momento.

Nas mais recente sondagem, da Emerson University, tanto Biden quanto Sanders ganhariam de The Donald por uma margem de 10 pontos. Warren também o venceria, abrindo 7 pontos de vantagem.

No entanto, mantinha-se que o senador por Vermont jamais passaria o ex vice de Obama, pois o público americano não estaria preparado para eleger um socialista.

Sanders não se amedronta, afirma para quem quer ouvir que é mesmo partidário, desta ideologia assustadora para muitos americanos. Se bem que, nem ele,  nem a também progressista, Elizabeth Warren, defendam qualquer socialização de empresas privadas. A senadora, inclusive, garante ser “capitalista até a medula”.

A verdade é que as posições dos dois não deixam  de ser revolucionárias.

Prometem arrancar o poder das mãos do establishment econômico e político, reduzir drasticamente as desigualdades e cobrar dos mais ricos os recursos para garantir a saúde e a educação dos pobres e da classe média.

Faz parte da plataforma dos candidatos progressistas planos como: educação gratuita do jardim da infância à universidade; perdão das dívidas que os estudantes assumiram para poder cursar o ensino superior; saúde gratuita para todos, inclusive os imigrantes ilegais; apoio ao Green New Deal, com eliminação das emissões de carbono até 2030; garantia de emprego geral e irrestrita; descriminalização dos imigrantes ilegais.

Quem pagaria todo esse fabuloso programa social seriam especialmente  os americanos ricos, através de taxações das grandes fortunas (os 1%), dos dividendos e lucros e das heranças.

Considerado um moderado, Biden se diz um progressista pragmático. Ou um pragmático às vezes progressista, como me parece mais certo.

Ele rejeita a taxação dos ricos, como impraticável e provavelmente inconstitucional. Não aceita a descriminalização da entrada de imigrantes ilegais pelas fronteiras e a garantia de saúde para todos, pois implicaria no fim dos seguros privados.

Mesmo sendo um moderado, Biden defende posições que, num passado recente, jamais seriam aprovadas pelo Partido Democrático,  pois seriam vistas como excessivamente radicais.

 O que mostra como a esquerda avançou no partido.

Biden é a favor de prestação de serviço de saúde gratuitos para imigrantes, mesmo ilegais. Acha que os americanos devem poder escolher entre um plano estatal de saúde e um convênio particular, coisa que Obama tentou mas não conseguiu incluir na sua reforma da saúde pública. A plataforma de Biden defende ainda negociações do governo  com as empresas privadas para reduzir os preços dos medicamentos, além da taxação dos aumentos de ganhos de capital.

Analisando a plataforma do candidato, encontramos as habituais exaltações da América e dos americanos- (um povo capaz de vencer os mais duros obstáculos) e o propósito de unir todos os habitantes do país.

 De resto, muitos detalhes inexpressivos e especialmente uma extensa relação dos objetivos nacionais, com poucas soluções concretas para serem alcançados.

Biden salienta em sua campanha que seus programas são ousados, mas realistas, factíveis, tanto legal quanto financeiramente (The Hill, 21-08-1934).

Em suma, enquanto Sanders e Warren querem destruir o establishment, Biden pretende apenas modificá-lo para que seja menos injusto (ou, talvez, mais justo).

Depois da balbúrdia causada pelo estrepitoso Trump, um  elefante numa loja de louças, o povo americano agora ansia por alguém tranquilo. Um político com bom senso, que não se lance em campanhas malucas, nem ofenda aqueles que não gostarem do seu topete. Mas que dê a certeza de um governo sólido e eficiente, sem experiências ousadas, garantido por sua experiência e por um passado sem manchas, ainda que sem grande expressão.

Sobretudo, que ao contrário de Trump que dividiu a nação em polos antagônicos, o novo presidente deveria unir os americanos de todos os partidos, ideologias e raças

O moderado Biden se enquadra nesse ideal.

Sanders e Warren, com suas proposta revolucionárias e sua belicosidade contra as corporações, são considerados promotores da cisão.

O povo parece rejeitar quem vem com ideias muito inovadoras, teme que poderiam não dar certo, inclusive, por não terem sido previamente testadas com sucesso.

Depois de Trump, o momentum não seria mais de mudanças, mas de estabilidade.

Apesar deste panorama provável e, há um fato que alimenta as esperanças de sucesso do candidato dito socialista.

Como se sabe, nos EUA, em pleitos muito disputados, os eleitores independentes costumam ser o fiel da balança.

Na recente pesquisa Survey USA (publicada pelo The Independent), focando eleitores sem filiação partidária, Sanders foi o democrata preferido para encarar The Donald, e o mandaria para casa, com um placar de 50% versus  42%.

E mais: mesmo entre os democratas, a maioria considera Sanders como o candidato individualmente melhor qualificado. Opta por Biden por razões circunstanciais: posições moderadas, maiores chances de derrotar Trump, capacidade de promover a união nacional, menos riscos, etc

No entanto, é inegável que Bernie Sanders renasceu. Não será grande surpresa se ele conseguir a maioria dos votos na convenção democrata que indicará o candidato do partido para tentar despojar The Donald do seu cetro.

Acredito, porém, que, se as pesquisas continuarem seguindo a tendência atual – como, aliás, tudo indica – Biden será mesmo o escolhido.

Alguns sonhadores aventam a hipótese de Sanders e Warren, defensores de ideias praticamente iguais, se unirem em torno da candidatura de um dos dois.

 Nesse caso, a disputa seria cabeça a cabeça, e o candidato progressista, fortalecido pelo apoio do outro, teria grandes chances de ser o escolhido nas primárias democratas. E, a seguir, conquistar a presidência dos EUA.

A vitória de um político progressista, somada a sucessos  nos pleitos do Congresso, teria consequências em todo o mundo. Os EUA se tornariam um novo país, sem interesses imperiais, mas comprometido com as causas da paz, da justiça, da segurança social e do fim das desigualdades. Bandeiras que ele levaria a todo o planeta, com a força do seu imenso poder econômico e militar.

Sei que se trata de uma utopia, uma ilusão.

Na realidade, viável será a concretização de uma distopia, numa possível reeleição de Donald Trump.

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