Acordo com o Irã: hora da Europa confrontar os EUA.

Aconteceu o esperado, Trump negou-se a certificar o Irã e passou a bola para o Congresso. Em termos, porém: The Donald advertiu que, caso o Congresso isoladamente, ou em conjunto com os países aliados não apresentarem mudanças significativas, Trump romperia o acordo, através de uma ordem executiva.

Como também era esperado, Reino Unido, França e Alemanha protestaram depois de Amano, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, atestar que o Irã vem cumprindo os compromissos que assumiu.

E Federica Mogherini, chefe de Relações Exteriores da Europa Unida, rubra de indignação, lembrou que “não se trata de um acordo bilateral. Ele (o acordo) não pertence a um só país e nenhum simples país pode encerrá-lo. ”

O problema é que, para The Donald, os EUA não são um simples país. Por seu poder econômico e militar, o império estaria acima das leis internacionais. E Trump não vacilou em revogar um princípio do Direito Romano, respeitado desde há mais de dois mil anos: pacta sunt servanda (os pactos tem de ser cumpridos).

Rex Tillerson, o Secretário de Estado, que havia se manifestado pela certificação, concordou que o acordo nuclear não devia ser alterado. Sugeriu, porém, um acordo à parte, que bloqueasse o programa de mísseis balísticos de Teerã e restringisse certas cláusulas do acordo.

Não vai dar certo.

O presidente Rouhani não aceitará. Por sua vez, a Europa também quer manter as cláusulas do acordo, sem mexer em nada. Quanto ao programa de mísseis balísticos, ele não em nada a ver com o acordo nuclear. Claro, continuando a respeitar seus compromissos com os P5+1, os iranianos não terão armas nucleares para equipar seus mísseis.

Um país com uma força de aviões velhos e defasados, precisa contar com mísseis balísticos de última geração. Sem eles ficará indefeso diante das as super- modernas e eficientes frotas de caças e bombardeiros dos seus inimigos regionais, Israel e Arábia Saudita.

Caso o pior aconteça e Trump acabe cumprindo sua ameaças, os EUA se tornarão, de direito, um autêntico rogue state, ou seja, um estado pária, que não respeita as leis internacionais inconvenientes a ele.

Esta pisada na bola, acrescentada a mais duas retiradas unilaterais de acordos multilaterais- o acordo de Paris- contra o aquecimento global, e o TTP – tratado de comércio com países europeus e asiáticos- além da ameaça de dissolução do Nafta- comércio livre de impostos entre EUA, México e Canadá, abalaram a confiança internacional em Washington.

Os líderes estrangeiros pensarão duas vezes antes de assinar acordos com um país que não tem palavra.

Trump e seus inocentes sucessores não vão gostar nada –seu povo, menos ainda.

Ha uma consequência imediata que vai atrapalhar a política de Tio Sam no exterior. Depois de passar meses doutrinando que a diplomacia com a Coreia do Norte já era, pois KimDong un só entendia a linguagem da porrada, Trump, bruscamente, falou em negociações.

Se o chefão de Piongiang, que já não acreditava muito em acordos com os EUA, depois da virada de casaca de Trump, mais dificilmente ainda,  topará negociar um acordo com um país que não os respeita.

Mas não é só os EUA que irão sofrer com os arroubos do seu presidente, o Irã também poderá ser sacrificado.

Com a retirada das sanções pelos P5+1, sua economia vinha se recuperando rapidamente. Em um ano, as exportações de petróleo quase dobraram e já existem muitos projetos de grandes investimentos por corporações europeias aprovados, alguns iniciando sua execução.

Diante da incerteza gerada pelo rompimento americano, empresas da Alemanha, França, Inglaterra, Rússia e China, principalmente, tendem a interromper suas tratativas com Teerã.

De fato, há uma forte possibilidade de que Trump concretize suas ameaças de novas sanções, inclusive proibindo de atuar nos EUA as empresas que negociarem com o Irã.

As implicações serão bastante danosas para a economia iraniana que, a curto prazo, sofrerá um stop na sua expansão.

Em entrevista ao Financial Times e ao The Guardian, Zarif, ministro iraniano do Exterior, disse que o único modo do seu país continuar a respeitar os limites no seu programa nuclear será se os outros signatários -EUA, França, Alemanha, China e Rússia- continuarem compromissados com as condições convencionadas, mesmo desafiando as subsequentes sanções americanas. Acredito que esses países – como seus líderes cansaram de repetir- continuarão respeitando o acordo nuclear, com ou sem os americanos.

O problema é: serão capazes de “desafiar” os EUA?

Não o duvido que o façam verbalmente, mesmo nas barbas de Trump.

Podem até o mimoseando com frases mais duras do que as empregadas normalmente.

Novamente, recorro a citações romanas, verbae volant (as palavras voam). Ações serão indispensáveis.

Há várias posições concretas que podem ser adotadas.

Se pressões para Trump recuar não funcionarem (é o provável), a alternativa seria exigir que o EUA não se fechassem para empresas estrangeiras atraídas pelas seduções econômicas do Irã de hoje.

Seria um autêntico desafio ao diktat do presidente dos EUA, o país líder do Ocidente.

Trump iria ranger os dentes de raiva.

Seu teatral rompimento ficaria pífio, um tiro na água, pois o Irã não perderia o que realmente lhe interessa: os negócios e investimentos europeus.

Uma ação europeia de tal magnitude seria uma exigência, digamos, sobreumana para Merkel e seus aliados.

Mas como a premier alemã, Ângela Merkel já aludiu à necessidade da Europa cuidar dos seus próprios interesses, não será surpresa se optar por uma postura diplomática independente e forte no trato com Trump da questão com o Irã.

Na verdade, desde o fim da última guerra, os países da Europa Ocidental vem seguindo a liderança da Casa Branca, com exceção do governo independente de de Gaulle.

Durante a Guerra Fria, França, Inglaterra e Alemanha precisavam do guarda-chuva yankee, para se protegerem da tempestade soviética e dos partidos comunistas espalhados por todo o Velho Continente.

Depois da queda do império soviético, dos governos do moderado Gorbachev e do desastroso Yeltsin, o fantasma das estepes ressurgiu com Putin,                                  empenhado em recuperar o controle das antigas repúblicas socialistas                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Olhando com desconfiança o expansionismo da Rússia, a Europa preferiu continuar na constelação americana, com um ou outro gesto de independência, pouco relevante.

Trump lhes dá motivos de sobejo para sair da sombra de Tio Sam.

Ainda mais agora que Putin insiste em se passar de bad guy a good guy e a China começa a buscar um maior protagonismo no drama político mundial.

Ameaçar uma aproximação com esses dois poderosos parceiros pode, quem sabe, convencer o presidente americano e deixar o Irã crescer em paz, optando por outras formas de confrontar a hegemonia regional desejada pelos aiatolás.

Tanto a confrontação europeia quanto o recuo do ex-ator de Tv, hoje presidente dos EUA, são ações extremamente arriscadas para os autores.

O fracasso delas poderia ser uma provável guerra em todo o Oriente Médio, eventualmente se estendendo às outras partes do globo.

O que só a indústria de armas poderia apreciar. Além de generais das várias partes, ansiosos para aplicar o que aprenderam na suas escolas militares.

Gostaria de lembrar àqueles que andam flertando com a guerra um texto do Tribunal de Nuremberg, que julgou os criminosos de guerra nazistas.

“Iniciar uma guerra de opressão não é apenas um crime internacional; é o supremo crime internacional, diferindo dos outros crime de guerra porque ele contém em si os males acumulados de todo o total dos crimes de guerra.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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