A Turquia encara os EUA.

Pragmático e audacioso, Erdogan está constantemente mudando sua política externa.

Ora pende para  os EUA, ora para a Rússia, conforme os interesses seus e/ou do seu país.

Nesse movimento pendular, ele deixa algumas portas abertas para o lado de quem se descola. Afinal, ninguém sabe o dia de amanhã.

A partir de 2003, o presidente da Turquia vem claramente saindo da lista de bons amigos de Tio Sam.

Rejeição a interesses americanos, agressões a Israel (bem-amado aliado de Washington), relações amigáveis com o Irã e parcerias com a Rússia na feitura de acordos sobre o Oriente Médio deixam enevoadas as relações entre Trompa e Erdogan.

A recente zanga entre os dois tem potencial para empurrar fortemente o ‘sultão” (apelido do presidente turco) para os braços ávidos de Putin.

A Turquia encomendou um certo número dos caças F-35, de quinta geração. Tudo certo até que Ancara avisou que iria comprar também um sistema anti-ísseis, não o Patriot americano, mas o S-400 russo, mais avançado e barato.

O F-35 é o maior e mais dispendioso programa militar de todos os tempos. Para reduzir seus custos, a Lockeed Martin, a fabricante, distribui a produção de partes do avião para alguns países que se associaram ao empreendimento. A Turquia é um deles, ficando por sua conta fabricar cerca de 7% do avião.

 Para ter condições de atender a essa função, o país já investiu 1,2 bilhão de dólares. E deveria lucrar 12 bilhões de dólares.

Mas  deu água.

Os EUA não admitem perder a venda do  seu sistema anti-míssil para,  logo quem, o sibilino Putin.

Inicialmente, afirmaram que o S-400 não poderia ser instalado em solo turco por dois motivos:

1-Seria incompatível  com a estratégia de defesa da OTAN;

2- A potência do seu radar permitiria aos russos descobrirem os segredos e vulnerabilidades do F-35.

E a Casa Branca advertiu os turcos que eles estavam comprometidos com o programa F-35 e, portanto, tinham de esquecer essa ideia subversiva de comprar armamentos russos.

Erdogan não se tocou. Continuou garantindo que a opção pelo sistema S-400 era definitiva.

A resposta americana foi a suspensão da entrega dos equipamentos necessários para os turcos fabricarem as partes do F-35, como estava contratado. As entregas só voltariam se Erdogan voltasse atrás.

Como ele não voltou, Mike Pompeo, falcão empoleirado na secretaria de Estado dos EUA, foi a Ancara para, pessoalmente, ameaçar o governo turco com devastadoras consequências que seriam geradas para punir sua desafiante decisão.

E informou que, conforme -o Counter America’s Adversaries Through Sanctions Act- um país que mantém relações militares com os EUA não pode comprar armamentos russos, do contrário, sofrerá as devidas sanções.

Aí, Erdogan, que não tem pelo nas ventas rugiu.

Como os EUA se atreviam a dar ordens a seu país? A Turquia tinha o direito de comprar o que quisesse, de quem  bem entendesse. Afinal, era um Estado soberano, ou não?

Daí em diante, o duelo verbal entre as partes fez a temperatura subir vertiginosamente.

A certas alturas, Erdogan clamou: “Não acredito que os EUA vá nos sancionar. Mas se forem em frente, nós os sancionaremos de volta.”

Foi uma jogada audaciosa.

Não faz muito tempo, quando Erdogan recusou-se a libertar o pastor americano Brunson, julgado por ações contrárias ao estado turco, Trump não vacilou em aplicar sanções. E a economia turca sofreu um bocado, tendo a lira caído assustadoramente, arrastando consigo um punha de índices econômicos.

Essa experiência negativa deve ter feito Erdogan vacilar.

Mas ele não arredou pé, provavelmente porque tem bons trunfos na mão.

 A base aérea de Incirlik é o principal. Os EUA a usam desde os tempos da Guerra Fria para suas operações no Oriente Médio. Foi extremamente importante na guerra contra o Estado Islâmico, na Síria e no Iraque. Chegou a ter cerca de 50 bomba nucleares estocadas (Star And Stripes, 2/07/2019 de julho).

Em outra base, Kurecik, os EUA mantem em operação um radar que exerce papel-chave, na rede de sistemas anti-mísseis da OTAN.

Numa briga com A Turquia, os EUA seriam despejados destas duas instalações. Não seria nada bom para suas operações militares na região.

Confirmando esta ameaça, o ministro do Exterior turco, Mevlut Cavosuglu, não hesitou em ir além do seu chefe, anunciando que a cessão das bases aos EUA estava arriscada, sendo uma das possíveis contra-sanções do seu governo.

Já era rebeldia demais.

E a equipe de Trump acabou de dar os últimos retoques num pacote de sanções para punir a Turquia e seu insubmisso presidente (FP News, 15-07-2019).

Enquanto isso, The Donald, inesperadamente comedido, limitava-se a repetir que tudo iria acabar em pizza, com Erdogan caindo na real.

E não é que acabou, mesmo ?

Só que, quem cedeu foi… surpresa: o orgulhoso presidente                                                                 e da mais poderosa nação do mundo.

Indignados com um país periférico, que ousava desafiar os EUA, 45 senadores republicanos foram  a Trump, exigindo castigo para esse autêntico crime de lesa-império.

Tranquilo, The Donald informou que não, ele não iria punir Erdogan. Forget it.

Qual seria a causa desta inesperada abdicação do poder da mais poderosa nação do mundo?

Chocados os 45 furiosos senadores faziam esta pergunta entre si.

Vai ver foi porque o governo não queria perder as bases turcas, inclusive no interesse de uma eventual guerra contra o Irã.

Talvez fosse para evitar uma possibilidade real dos EUA perderem um precioso aliado para seu inimigo número 1, a Rússia de Vladmir Putin.

Ou, simplesmente porque, engajado até os dentes na guerra econômica à China e numa possível guerra contra o Irã, The Donald não queria ter de se haver com um terceiro conflito, de importância menor em relação aos outros dois.

Na minha opinião esta última hipótese é a mais correta.

Mas, não pensem que Trump se deixou vencer por Erdogan.

Acho que ele apenas adiou as sanções para o ano que vem, quando ele espera que as rixas com a China e o Irã estejam menos preocupantes.  

Um indício está na resposta do belicoso morador da Casa Branca a jornalistas, que o questionavam sobre as sanções à Turquia.

“É uma situação muito, muito difícil por uma porção de razões. Não, nós não estamos considerando isso agora.”

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