34 anos depois, assassino do arcebispo Romero é processado.

Entre 1980 a 1992, El Salvador foi sacudido por uma guerra civil entre o governo de direita e a guerrilha de esquerda.

Eram tempos de guerra fria e os governos americanos do período apoiaram com armas, treinamento e inteligência os donos do poder.

Nesta guerra, o arcebispo de El Salvador, dom Oscar Romero denunciava em seus sermões as injustiças sociais, a pobreza e a violenta repressão policial.

Odiado pelos grupos de extrema direita, ele foi assassinado por um esquadrão da morte, quando celebrava missa, em março de 1984.

Seu executor foi um atirador de elite do exército, treinado pela Escola das Américas, dos EUA.

O crime causou horror no país e no exterior. Dezenas de organizações internacionais exigiram a punição dos culpados.

Apesar deles serem conhecidos, os governos salvadorenhos jamais os processaram durante a guerra civil. Somente depois do seu fim, uma investigação controlada pela ONU condenou os assassinos.

No entanto, não alcançou seu líder, o político de extrema-direita e ex-major do exército, Robert d´Aubuissom, que, a essas alturas, já tinha falecido.

D´Aubuisson era uma das mais importantes lideranças do establishment local, tendo fundado um violento movimento paramilitar, a União dos Guerreiros Brancos.

Ele se envolveu na morte de seis jesuítas, em, 1989, e de muitos outros atentados contra ativistas de direitos civis, além da morte de Zamora Rios, procurador-geral de El Salvador.

A guerra civil terminou somente em 1992, com 75 mil mortos, dos quais milhares de rebeldes e outros oposicionistas foram assassinados pelas forças militares.

Em 1993, graças a uma lei que anistiou todos os que praticaram crimes durante a guerra civil, os assassinos de Dom Romero se safaram.

Somente no ano passado, 34 anos depois do crime, a justiça começou a ser feita. A Corte Constitucional de El Salvador anulou a lei da anistia.

Baseando-se nessa decisão, o juiz, Ricardo Chica, ordenou à promotoria que iniciasse um processo contra Álvaro Rafael Saravia, um ex-soldado, o principal suspeito de participação no assassinato de dom Romero.

Em 1997, o papa João Paulo II iniciou o processo de beatificação do arcebispo assassinado.

Passaram-se mais 18 anos.

Em 2115, o papa Francisco finalmente ordenou a beatificação de dom Romero, reconhecendo-o como mártir da igreja.

Na ocasião, Francisco enviou uma mensagem que dizia: ”Em tempos de coexistência difícil, Romero soube guiar, defender e proteger o seu rebanho…Damos graças a Deus porque concedeu ao bispo a capacidade de ver e ouvir o sentimento do seu povo. ”

E de também agir em defesa dos salvadorenhos perseguidos e injustiçados.

Por isso mesmo, incomodou muito os grandes proprietários de terras e políticos de direita, que também agiram.

Primeiro, através de ameaças por cartas e através da imprensa corrupta, servil ao governo.

 

Mas dom Romero não se dobrou.

Na véspera de sua morte, em sua homília, ele se  dirigiu às autoridades: “Em nome de Deus e desse povo sofredor, cujos lamentos sobem ao céu todos os dias, peço-lhes, suplico-lhes, ordeno-lhes: cessem a repressão”.[9]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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