200 mil escravas sexuais perturbam as relações nipo-sul coreanas.

Na 2ª Guerra Mundial, entre as atrocidades cometidas pelos exércitos japoneses na Coreia, está a tragédia das comfort women (mulheres de conforto).

Cerca de 200 mil moças coreanas foram forçadas a servirem de prostitutas para os militares de Tóquio.

Verdadeiras escravas sexuais, elas tiveram de se submeter a toda sorte de desejos, perversões e estupros, sofrendo frequentes violentas agressões.

Elas viviam em bordéis improvisados ou barracas, peto das linhas de combate, sendo que cada uma participava de 70 relações sexuais por dia, em média.

Quando a vitória das forças americanas aproximava-se, em diversas bases militares japonesas, muitas dessas moças foram assassinadas ou forçadas ao suicídio, para não testemunharem o crime de que foram vítimas.

Durante seu martírio, quase ¾ das 200 mil escravas sexuais coreanas morreram. A maioria das sobreviventes ficaram inférteis, devido a traumas sexuais e doenças sexualmente transmissíveis.

Quando a guerra acabou, o programa das confort women também foi encerrado.

Mas os coreanos não esqueceram. A mágua, o horror e a indignação permaneceram, vivos e atuantes.

Foi erguida uma estátua em memória das escravas sexuais, instalada em frente à embaixada japonesas, em Seul. Réplicas apareceram em várias partes do mundo, as primeiras em Novas Jersey, Califórnia, Austrália e Alemanha.

Já os japoneses, pelo contrário, queriam enfiar debaixo do tapete esse hediondo crime de guerra praticado por seus militares. Era uma vergonha pesando sobre um povo ansioso por apagar as violências do passado, inconciliáveis com o Japão democrático, surgido dos escombros da guerra.

Em 2015, pareceu ter sido encontrada uma solução.

Nesse ano, o Japão formalizou um acordo com o governo sul coreano, no qual o governo de Tóquio pedia desculpas e fornecia 9,2 milhões de dólares para as sobreviventes. E a Coreia deveria dar a questão encerrada e nunca mais falar em “escravas sexuais”.

Não era o que o povo sul coreano queria.

A presidente Park Geun-hye, vinha sendo surda à voz das ruas. Uma série de abusos de poder e ações corruptas, cometida em 2017, provocou protestos de rua, cada vez mais intensos.

Seu impeachment tornou-se inevitável.

Nas eleições que se seguiram, Moon Jae-in venceu.

Trata-se de um político honesto, defensor de causas humanitárias e de uma política externa independente dos EUA.

Desde logo, ele se declarou contrário ao acordo de 2015.

Para ele, o programa de “escrava sexuais” que os japoneses rotularam como “mulheres de conforto”, era um “crime contra a humanidade”.

Portanto: “para resolver a questão das mulheres de conforto, o governo japonês, seu perpetrador, não deveria afirmar que a questão estava encerrada (Al Jazeera, 1-3).”

Moon criticou repetidamente o acordo, taxando-o de “seriamente incorreto”, que jamais seria apoiado pela Coreia do Sul. O Japão teria assumido uma responsabilidade legal insuficiente pelas ações japoneses, o acordo seria “injusto”, o governo de Tóquio deveria fazer um sincero pedido de desculpas.”

Nada disso agradou ao Japão.

Yoshihide Suga, porta voz do governo, declarou: ”O que o presidente Moon disse contra o acordo Japão-Coreia do Sul é totalmente inaceitável, extremamente lamentável. O acordo é uma solução final e irreversível para o assunto, o Japão respeitou todas as obrigações baseado no acordo e agora pede que a Coreia do Sul faça o mesmo.”

Já o ministro dos Estrangeiros, Taro Kono, deixou escapar uma opinião que pode detonar uma dura discussão entre os dois países: “O ponto de vista do Japão é que a expressão “escravas sexuais” contradiz os fatos e não deveria ser usada.”

Deu voz ao que se fala em certos meios, que as moças coreanas aceitavam fazer sexo com os soldados japoneses voluntariamente. Os oficiais jamais as teriam forçado pois elas estariam interessadas em ganhar dinheiro.

Não excluindo que isso possa acontecer, embora em pequena escala, há estudos de comissões e pesquisas, provando que as moças tinham sido levadas à força aos quartéis e lá sofriam pressões irresistíveis para se tornarem escravas sexuais dos soldados.

Se o Japão embarcar nessa tese, os problemas com a Coreia do Sul poderão gerar mais do que um simples mal estar entre os dois países.

De qualquer maneira, o presidente Moon não deixou claro que tipo de reparações exige de Tóquio.

Talvez um documento aceitando a responsabilidade oficial do exército imperial japonês no crime. Ou mesmo uma comissão de inquérito independente, para determinar os fatos com precisão, bem como os culpados (muitos ou a maioria já devem ter morrido).

Seja como for, a posição de Moon, exigindo que as escravas sexuais nunca sejam esquecidas, me parece correta.

Assim como o Holocausto e o massacre de armênios pelo exército turco, a história dessa atrocidade praticada pelo exército japonês – e não por alguns setores isolados – tem de ser sempre lembrada.

A humanidade precisa ficar consciente dos abismos aonde os homens em guerra podem cair ao viabilizarem interesses estratégicos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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