17 ANOS DE UMA GUERRA SEM FIM.

Depois de falar longamente no Senado sobre a guerra do Afeganistão, o general Nicholson, comandante das forças americanas, foi perguntado: quem está ganhando?

Nicholson vacilou, mas respondeu de forma contrastante com suas palavras animadoras de até então: “Estamos num impasse. ”

Na opinião do Inspetor Geral da Reconstrução do Afeganistão (SIGAR), já exposta em 20 de janeiro deste ano, esse “impasse” é, digamos, um tanto negativo.

Diz o relatório do SIGAR: “Apesar de apropriarmos três quartos de um trilhão de dólares no Afeganistão, a partir de 2001, as forças de segurança afegãs continuam um problema de despesa infladas, com os comandantes locais  embolsando fundos fornecidos pela América para pagar soldados inexistentes. O número de “soldados fantasmas” é uma fração dos homens necessários para a luta. ”

Em junho de 2016, por exemplo, o chefe da polícia de Helmand informou que metade dos policiais da província eram fantasmas.

A corrupção continua em larga escala. O Afeganistão só ganha da Coreia do Norte e da Somália no ranking internacional dos países corruptos.

Adicionando a inflação, os gastos americanos na reconstrução do Afeganistão são mais elevados do que o total dos gastos para se reconstruir os países de toda a Europa Ocidental.

Diz o SIGAR que o Afeganistão não tem mais esperanças de sobreviver no futuro próximo sem depender completamente da ajuda exterior.

Essa corrupção generalizada sabota a missão dos EUA, reduzindo os recursos financeiros exigidos para combater o Talibã com a eficiência devida.

Os EUA dão uma força ao crescimento da corrupção governamental ao injetar dezenas de bilhões de dólares na economia afegã sem uma supervisão adequada, além de se associarem a intermediários de má reputação.

O relatório do SIGAR mostra que somente em 2009, oito anos depois do início das atividades de  reconstrução, o governo dos EUA começou a descobrir a conexão entre uma imensa rede interdependente de oficiais afegãos corruptos, criminosos, traficantes de tóxicos e rebeldes insurgentes.

Foram tomadas medidas para dar um stop nas ações dessa rede.

Mas 2010, dois escândalos mostraram a impotência dessas medidas.

Mohamed Zia Salehi, assessor-chave do então presidente Karsai, foi preso por obstruir uma investigação de transferência de dinheiro de uma firma suspeita, movimentando bilhões de dólares fora do Afeganistão em benefício de oficiais afegãos trapaceiros, traficantes e insurgentes.

Poucas horas depois da prisão, o presidente Karsai ordenou a libertação do seu amigo.

Em setembro de 2010, o Kabul Bank, o maior banco do Afeganistão na época, quase quebrou quando correu junto ao público que ele estava insolvente. O banco operava como um esquema maciço de pirâmide. Centenas de milhões de dólares foram fraudulentamente emprestados para falsas empresas, que raramente os pagavam.

Alguns beneficiários principais eram o irmão de Karsai e o irmão do primeiro vice-presidente.

Nesse episódio, 2l dos envolvidos foram condenados pelo roubo de um bilhão de dólares do banco. Mas, poucos dos que possuíam conexões políticas gramaram cadeia ou devolveram partes significativas do rombo.

Outro objetivo das forças americanas era acabar, ou pelo menos reduzir consideravelmente, a produção e exportação do ópio.

O Afeganistão oferece condições ideais para o plantio da papoula, de onde se origina o ópio. Durante muitos anos, talvez séculos, os  afegãos  vem sendo os maiores plantadores de papoula, produtores e exportadores de ópio do mundo.

Grandes latifundiários, os chamados “senhores da guerra”, mantinham verdadeiros exércitos particulares, eram os “manda-chuvas” das regiões do interior. Lá a presença do Estado era mínima.

Somente o regime dos talibãs ousou por um fim nessa nefanda atividade, obtendo resultados marcantes (depois de sua queda, os talibãs passaram a tiraram do ópio recursos para suas ações militares).

Depois da revolução dos guerrilheiros muçulmanos (a al Qaeda nasceu assim) derrubar o regime do Talibã, com apoio dos “senhores da guerra”, foi preciso fazer um acordo com esses ilustres cidadãos.

E assim os “senhores da guerra” foram deixados em paz pelo governo, tendo mesmo se tornado integrantes de gabinetes presidenciais.

Sua oposição (afinal também traficavam) foi um dos motivos que provocaram os fracos resultados americanos na sua guerra contra o ópio.

Apesar dos EUA gastarem 8,5 bilhões de dólares no empreendimento, a produção continuou em alta.

O Intercept (15 de março) informa que o Afeganistão fornece cerca de 90% do ópio consumido em todo o mundo, tendo seu volume aumentado em 43%, em 2016.

Na campanha militar, as coisas não estão nada boas para os americanos. Eles já investiram 70 bilhões de dólares dos contribuintes na reconstrução das forças de segurança do Afeganistão. E hoje, passados 17 anos de guerra, apenas 63% das capitais de distrito são controladas pelo governo. Para o Político, não mais do que 57% dos territórios dos distritos estão nas mãos do governo de Cabul.

Viajar pelas estradas do país é inseguro devido ao contínuo risco de rapto, prisão de reféns, operações militares, bombas de estrada, banditismo, rivalidades políticas, lutas entre tribos adversárias, ataques por grupos armados e de talibãs ou aliados, inclusive usando veículos bélicos ou artefatos explosivos improvisados (os IEDs).

Os EUA chegaram a enviar grandes forças armadas ao Afeganistão, cujo total atingiu seu ápice, em 2014: 100 mil soldados.

Perto de um milhão de americanos lutaram pelo menos durante um período

Até 28 de dezembro de 2014, as perdas chegaram a 2.500 soldados mortos e 20 mil feridos. De lá para cá, esses números devem certamente serem maiores.

Em janeiro de 2015, com o acordo de retirada das tropas dos EUA e aliados, somente 10.800 soldados permaneceram no território afegão. O presidente Obama achou suficiente pois os talibãs estariam muito enfraquecidos.

O relatório do SIGAR mostra que eles se recuperaram.

O “impasse” do general Nicholson parece ser  complicado. Tanto é que, depondo no Senado, ele pediu mais “uns poucos milhares de soldados. “

Mais recentemente, o general Votel, comandante em chefe das forças dos EUAParte inferior do formulário

, somou com Nicholson, ao falar aos senadores que uma nova estratégia teria de contar com “forças adicionais. ”

Lembro que o ex-presidente Obama, no início da retirada do grosso das forças americanas, anunciou que a missão dos EUA estava completa, sendo que deixaria uma força militar extremamente reduzida, somente para treinar os soldados afegãos e, eventualmente, intervir em certas missões especiais.

O “eventualmente” tornou-se constante, muitas vezes aconteceu participação direta dos militares americanos nos combates.

Hoje, três anos depois da retirada oficial, o Pentágono pressiona para que o governo dos EUA envie mais contingentes pois os considera necessários face aos progressos dos talibãs.

Mas, Trump despreza a guerra do Afeganistão. Considera-a a mais errada das intervenções militares feitas por seu país.

Madeleine Albright, secretária de Estado no então governo Clinton, uma vez perguntou: “Qual a razão de termos estas super forças militares, das quais vocês tanto falam, se não podemos usá-la? ”

Tudo indica que agora poderão.

O belicoso Trump não está criando “o maior exército do mundo” se for para deixar os rapazes estacionados nos quartéis, tomando Coca-Cola, jogando poker e fumando cigarros proibidos na maior parte da América.

Ele não deve hesitar em atender aos seus ansiosos generais.

Do jeito que as coisas vão no Afeganistão, e que o SIGAR apontou com clareza, será uma parada indigesta.

Se nem 100 mil americanos (fora a pequena contribuição dos aliados de Washington à guerra) ,  no pico da intervenção dos EUA, conseguiram vencer, o que poderá acrescentar o reforço dos “poucos milhares” pedidos pelo general Nicholson?

Talvez um dia, tendo investido mais centenas de bilhões de dólares, Tio Sam comemore a paz.

O futuro a Deus pertence, não a The Donald.

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